Quinta, 24 de Janeiro de 2019
O Halloween e os santos e demônios das tradições e das traduções
31/10/2018 as 19:55 | Fernandópolis | Sérgio Piva
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A influência das tradições de uma determina cultura sobre outra sempre existiu na história da humanidade. Também é fato que, com o passar do tempo e o caminho trilhado, as tradições dos povos, culturas ou etnias vão sendo modificadas, principalmente em razão das diferenças de costumes existentes entre elas, sobretudo, pela interferência das religiões, ou melhor, de suas instituições.

As Festas Juninassão um exemplo. De origem europeia, originalmente aconteciam durante o solstício de Verão, no hemisfério norte, quando diversos povos utilizavam a data para a realização de cultos pagãos com rituais para pedir fertilidade da terra e abundância na colheita.

Então, o cristianismo resolveu converter essa tradição pagã em festa católica, associando a data ao aniversário de São João. Se não pode vencê-los junte-se a eles. Depois, os portugueses passaram a comemorar também as noites de São Pedro e Santo Antônio. Mais tarde, trazidas ao Brasil, as festas “pegaram” entre índios e escravos. Hoje, acredito, é muito mais uma manifestação da cultura popular, do que uma festa religiosa, espalhada pelo país com características e formas diversas.

O termo junino é motivo de várias especulações etimológicas. A maioria acredita tratar-se de um adjetivo que faz referência ao mês de junho. Outros dizem que tem origem na palavra joanina (de Festas Joaninas), em homenagem a João Batista. E há aqueles que afirmam que o termo vem de Juno, deusa da mitologia romana, de onde também se originou o nome do mês de junho.Polêmicas à parte, na prática não faz nenhuma diferença, já que os participantes das festas juninasnão comemoram mais nada, só querem dançar e encher a barriga com a comida servida. E como isso é “bão”.

Outro exemplo de tradição e polêmica é o halloween, que teve início com o povo celta espalhado pela Europa, especialmente aqueles que ocuparam as regiões da Grã-Bretanha. No último dia de outubro, eles comemoravam o feriado de Samhain, considerado como o último dia do verão e início do ano novo céltico, além de outros aspectos ligados àquela cultura que faziam referência à colheita e à abundância de alimentos.

O uso de máscaras e trajes amedrontadores tem origem na lenda celta de que, naquele dia, todos os espíritos das pessoas que haviam morrido durante o ano voltariam em busca de corpos vivos para os possuírem e assim viverem no ano seguinte. Então, os vivos, que não queriam ser possuídos pelos espíritos dos mortos, quando chegava a noite do dia 31 de outubro, apagavam as tochas e as fogueiras de suas casas para que elas se tornassem frias e desconfortáveis, vestiam fantasias e desfilavam de forma ruidosa pelas ruas, sendo tão destrutivos quanto possível, com o único intuito de assustarem os espíritos que buscavam corpos para possuir.

Como muitas outras, essa comemoração também foi cristianizada e passou por diversas adaptações e transformações, desde a evangelização do povo Celta e dos Druidas. Foi levada para os Estados Unidos pelos Irlandeses, povo de etnia e cultura Celta, onde surgiu a tradição moderna dos "doces ou travessuras" e a abóbora passou a ser um símbolo do halloween.

No Brasil a comemoração foi introduzida por meio das escolas de inglês, com o intuito de mostrar um pouco da cultura americana, já que é o maior feriado não cristão dos Estados Unidos, e já está em vias de virar tradição também em nosso país.
Entretanto, por aqui, o Halloween foi denominado como Dia das Bruxas, criando mais confusão na tradição e na tradução.

A origem da palavra “Hallowe’em”, usada pelos escoceses, segundo a hipótese mais aceita, tem origem na aglutinação das palavras “AllHallows’ Eve(n)”, que pode ser traduzida como “Véspera de Todos os Santos”, por acontecer no dia anterior ao primeiro de novembro, dia de todos os santos.

O termo "Dia das bruxas" não é utilizado pelos povos de língua inglesa, sendo essa uma designação apenas dos povos de língua portuguesa. Uma tradução “nada-a-ver”, se levarmos em consideração a história e etimologia do halloween. Além do fato de trazer mais confusão nas interpretações dessa tradição eacrescentarmaior misticismo e distorções nas tradições originárias. Muito mais do que já ocorreu. Apesar da dificuldade que nos impõem as traduções, por não haverem palavras ou expressões similares entre osidiomas, me parece que faltou estudo ou criatividade.

Por isso mesmo, ouvimos muitas teorias infundadas ou, simplesmente, inventadas sobre o halloween, que, afinal não é dia das bruxas, talvez seria contra as bruxas, também numa interpretação literal e errônea sobre o que são as bruxas criada a partirdas histórias infantis e reforçada pelos desenhos da Disney.

Talvez seria mais fácil se comemorássemos, em 31 de outubro, o Dia do Saci, instituído por lei federal como forma (inútil) de resistência à cultura norte-americana, não para resistir, mas porque tem mais a ver conosco.

O Saci, além de ser figura lendária donosso folclore, representaria muito bem a maioria do povo brasileiro, pois é afrodescendente, divertido, brincalhão, sempre veste a carapuça e vive dando seus pulos.

E não precisaríamos ficar preocupados com tradução. É puro tupi-guarani.

Ainda que a maneira de comemorar fosse preocupante, já que o Saci vive aprontando travessuras, ele não faz arte com o objetivo de prejudicar alguém ou fazer o mal. É apenas um eterno menino.


Sérgio Piva
s.piva@hotmail.com
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