Terça, 25 de Setembro de 2018
Com professora, governo conta como convenceu russos a sorrir
19/06/2018 as 11:21 | Mundo | Da Redaçao
Treze bilhões de dólares (R$ 48,7 milhões) investidos, uma operação de guerra e todos os esforços para mostrar ao mundo que, mesmo diante de sanções internacionais, a Rússia é um país amistoso e acolhedor.

Mas, na vasta máquina de propaganda liderada pelo Kremlin durante a Copa do Mundo para abafar uma imagem negativa, de nada adiantaria se os mais de 500 mil estrangeiros que visitam o país neste momento deixarem a Rússia com sentimento amargo.

Assim, para garantir o êxito da operação, as autoridades iniciaram já no ano passado um curso básico para as centenas de pessoas que iriam lidar de maneira direta com os estrangeiros. Na apostila, uma só missão: aprender a sorrir.

Na abertura da Copa do Mundo, o presidente russo Vladimir Putin deu o tom. "Esperamos que desfrutem sua estadia na Rússia, um país aberto, hospitaleiro e amistoso", discursou. "E que conheçam novos amigos, pessoas com as quais compartilham os mesmos valores", insistiu.

O curso coube à psicóloga Elnara Mustafina, que trabalhava na empresa de ferrovias da Rússia, uma estatal que tem o simbolismo de ligar um país do tamanho de um continente. "A avaliação é de que eram os funcionários da rede ferroviária que estariam de forma mais direta em contato com torcedores de todo o mundo durante o torneio", explicou.

Segundo ela, o ato de sorrir não é raro na Rússia. "Mas ele não é distribuído gratuitamente e é reservado a quem se conhece", explicou. Ela argumenta que a pressão do frio de sete meses e uma cultura distante da latina fazem com que, no dia a dia, o sorriso não esteja presente nos rotos das pessoas pelas ruas. No total, ela estima que seu curso do sorriso tenha atingido mil trabalhadores.

A ideia era garantir que os funcionários pudessem entender que, ao sorrir, não estariam se comprometendo a nada. Antes de aprender a sorrir, a psicóloga precisava chamar a atenção do grupo para a interpretação de sentimentos. Assim, seu primeiro exercício consistia em criar uma espécie de brincadeira do telefone sem fio, sem palavras.

O primeiro da fila sussurrava o nome de uma emoção para a pessoa seguinte. A partir dela, a "mensagem" teria de ser passada adiante apenas por expressões faciais. O último da fila precisava saber qual havia sido a palavra inicial dita. "O que eu queria mostrar era que podemos interpretar errado um sinal, um gesto, principalmente se do outro lado está uma pessoa de outra cultura", afirmou.

O segundo exercício era o de convencer os trabalhadores a escutar os estrangeiros. Para isso, ela dividia o grupo em pares. Uma das pessoas recebia a tarefa secreta de não dar bola ao parceiro. Já o outro recebia a instrução de tentar contar uma história a seu colega. "O objetivo era o de mostrar que temos de escutar e que o funcionário sinta a frustração que é não ser ouvido nas ruas", explicou Elnara Mustafina.

Só com as emoções superadas é que o curso então passava para a sua parte prática: sorrir. Segundo a professora, existiriam três tipos de sorriso. O primeiro - e único a ser evitado - é o falso. "É aquele que apenas mostramos os dentes", disse. "O segundo é o sorriso com os lábios e os olhos, real e generoso", explicou. "O problema é que, com milhares de pessoas que precisam passar pelas catracas, não há como sorrir assim", justificou. A solução é apostar no sorriso com os olhos. "No fundo, é não mostrar uma cara emburrada". Típico de russo.

Em uma das entradas de uma estação de metrô no centro de Moscou, a reportagem confirmou com duas funcionárias que o curso, ainda que de apenas meio dia, tinha sido válido. "É uma questão de costume você sorrir", comentou Anna. Não longe dali, uma voluntária encarregada de pintar o rosto dos torcedores admitia que não sabia se o sorriso ia durar. "Acho que somos um país isolado, com pouco contato no resto do mundo", disse Julia.

PRECONCEITO - O esforço de abertura e de sorriso dos russos esbarra em uma resistência real de parte da sociedade. Em São Petersburgo, um espaço destinado para que minorias étnicas e grupos LGBT pudessem assistir aos jogos não foi autorizado a iniciar a sua agenda. ONGs locais e estrangeiras culparam a pressão de autoridades da cidade conhecida por ser mais conservadora do que Moscou.

Quem parece não ter escutado a ordem de abertura foi Tamara Pletnyova, uma deputada russa. Ela criou uma saia-justa ao declarar em uma rádio local que defendia que mulheres russas não deveriam ter relações sexuais com estrangeiros, para evitar o nascimento de filhos de "raças misturadas". "É bom se as crianças tiverem apenas uma raça na Rússia", disse.
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