Quinta, 27 de Julho de 2017
Histórias
04/07/2017 as 20:30 | Fernandópolis | Sérgio Piva
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Quem espera sempre alcança, diz o ditado popular. Quem acredita sempre alcança, parafraseou Renato Russo. Vamos embora, que esperar não é saber, pregou Geraldo Vandré. Todos as afirmações podem estar corretas. Cada uma por suas próprias razões e dentro dos seus respectivos contextos.

Já eu, sentado na sala de espera, revezando o olhar entre palavras impressas na página de um livro e a imagem de um senhor sentado no canto da sala, paralisado diante da tela do computador, não tinha muitas opções, a não ser esperar e acreditar que seria atendido, mesmo sem o saber.

Como esperar significa dispor de tempo e criatividade para, imaginariamente, acelerar os ponteiros do relógio, detive-me pouco na leitura, já que a cena descrita acima chamava-me mais a atenção. Fui-me aproximando devagar, sentando de banco em banco, até estar quase defronte ao monitor que, do outro lado, escondia parcialmente o Senhor Rospo.

Descobri o nome dele depois de um breve diálogo, iniciado com perguntas prontas para puxar conversa, como aquelas do tipo “tá calor hoje, né?”, “Trabalha há muito tempo aqui?”, aparentando uma questão retórica, cuja resposta monossilábica costuma ser apenas “tá”, “sim”, quando o interlocutor não quer papo, ou então uma resposta com novas informações do tipo “tá, demais, só que disseram que vai chover”, devolvendo, em seguida, uma outra pergunta a fim de engrenar a conserva, como se as palavras fossem faíscas a provocar o incêndio do diálogo, quando existe disposição para o bate-papo e recíproca empatia entre os interlocutores.

Estabelecido o relacionamento verbal e esgotadas as perguntas prontas de praxe, perguntei o motivo de ele estar olhando a tanto tempo para a tela do computador sem qualquer reação. Expliquei que observei a cena por acaso, só não falei que o fiz por ser demasiado curioso e, naquele instante, um pouco intormetido.

O Senhor Rospo esclareceu-me que estava tentando escrever um texto que seria publicado no jornal da cidade, tarefa praticada semanalmente, mas que desta vez tinha dado um branco. Apesar de tantos assuntos que pairavam sobre sua cabeça, não tinha ideia sobre o que falar.

Depois do breve esclarecimento, virou sua cadeira em minha direção, olhou-me fixamente e disse: “Como isso é engraçado, não? Essa página em branco tem certa semelhança com nossas vidas. Nascemos sem palavras, mas elas são acrescentadas ao longo da existência, assim como nossas ações e suas reações”.

Mal tive tempo de dizer se concordara com a afirmação, ele emendou: “Acho que nossa vida é isso, ideias diante de uma página em branco. Vários textos podem ser escritos. Vou redigindo os acontecimentos. Alguns decido escrever por mim mesmo, já outros, parecem surgir na página como se os dedos fossem dominados por uma força inerente, que está além do pensamento consciente.

De vez em quando acontece, depois do texto escrito, de não gostarmos da história ou percebermos erros na grafia, concordância ou sintaxe. Ás vezes é possível fazer uma correção ou mudar a história. Somente torna-se impossível depois do texto publicado”

Ajeitei-me na cadeira estofada, ao mesmo tempo em que ouvia a analogia descrita pelo Senhor Rospo e tentava produzir imagens mentais daquelas palavras. Ele prosseguiu: “O texto que colocamos na página em branco não é só resultado de nossas ideias, em sua maior parte as palavras surgem dos sentimentos. Doutras vezes nossas ideias são recusadas por nós mesmos, então escrevemos ideias absorvidas do contato alheio, criamos parágrafos com ideias misturadas, com ideias repensados, com ideias que não fazemos ideia”

Agora esse cara viajou na maionese. Pensei, mas não disse. Por não ter processado toda a alegoria e porque ele não me deu tempo suficiente para refletir sobre aquela metáfora.

Sem intervalo para reflexões ou comerciais, ele continuou: “A história que escrevemos em nossa página em branco não depende só de nós. Ela surge de nossas ideias, desejos e emoções, mas também resulta de outras histórias que dela aparecem. A folha vai-se preenchendo com palavras escritas, que se entrelaçam com as palavras lidas. A história tem suas próprias frases e, às vezes, parágrafos inteiros de outras histórias que entraram, a convite, ou sem ele, em nossa folha”.

A única coisa que pensei naquele momento, e falei, foi “como assim?”. Sem titubear, como quem estivesse esperando exatamente por essa pergunta, ou como se ela pairasse escrita na minha testa em letras de neon acesas piscantes, o Senhor Rospo tascou a explicação: “Nem sempre é possível escrever o que pensamos e o que queremos. Há momentos em que é necessário pegarmos palavras emprestadas. Outras vezes emprestarmos palavras. A história é escrita com as palavras possíveis, doces ou amargas, agradáveis ou doloridas, afáveis ou rudes”.

Talvez porque ainda permanecesse com cara de ponto de interrogação, ele tenha decidido concluir e falou: “O importante é construir o texto, com suas palavras ou com palavras emprestadas, não importa. Desde que seja seu. Nem todos farão a mesma leitura. Procure usar mais verbos no presente, alguns no futuro e quase nenhum no passado. O fundamental é que você escreva com suas próprias mãos um texto de sua autoria. Não deixe que outros autores escrevam histórias em sua folha em branco.”

Antes de finalizar o Senhor Rospo deu um sorriso largo e disse-me: “Desculpe se falei demais. Quando não sabemos o que escrever, é preciso saber esperar. A história surge quando as palavras aparecem na folha. Por sua vez, as palavras são concebidas a partir do atrito, das pedras, das pessoas, dos ponteiros.”

E finalizou: “Acho que vou escrever sobre isso. Espere e lerá”.

Sérgio Piva

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