

O clima esquentou na Câmara Municipal durante a última sessão, marcada por uma enxurrada de críticas contundentes à administração do prefeito João Paulo Cantarella. O estopim da revolta foi a decisão unilateral do Executivo de suspender a impressão dos carnês de IPTU para 2026, mas o debate escalou para denúncias de abandono no distrito de Brasitânia, falhas graves na zeladoria urbana e um relato chocante de descaso na Secretaria de Bem-Estar Social. OUÇA NOSSO PODCAST ABAIXO

IPTU Digital: “Um crime contra a população”, dizem vereadores
A bancada de vereadores não poupou adjetivos para classificar a decisão da Prefeitura de extinguir os carnês físicos sem aviso prévio. Para o vereador Julinho, a medida é um “crime contra a população”. O parlamentar alertou para o risco de inadimplência em massa, já que muitos idosos e pessoas carentes não possuem acesso à tecnologia ou impressoras.
“Não podemos fazer de Fernandópolis um laboratório de experiências”, disparou o vereador Daniel de Domênices, criticando a falta de planejamento. Segundo os cálculos apresentados pelo vereador André, a cidade possui cerca de 35 mil imóveis, o que exigiria um atendimento impossível de 1.200 pessoas por dia no Poupatempo para dar conta da demanda que o carnê impresso resolvia.
O vereador Barone foi além e denunciou a soberba da administração: “Foi uma atitude isolada do senhor prefeito com seus secretários. Quem paga é o povo. Se não pagar, em dois anos bloqueiam até o salário do coitado na justiça. É uma irresponsabilidade”.
Educação e Bem-Estar: O drama dos idosos abandonados
O momento mais dramático da sessão ocorreu durante a fala da vereadora Rosana, que relatou um episódio de “descaso total” na assistência social do município. Ela e o vereador Lucas narraram a via-crúcis para ajudar dois idosos (um cego de 85 anos e uma senhora de 78) abandonados na rodoviária.
Gente, como é necessário um albergue em uma cidade. Eu e o Lucas tivemos uma experiência há umas duas semanas. Simplesmente nos ligaram informando que havia dois idosos, um senhor de 82 anos e uma senhora de 78, abandonados na rodoviária.
A moça me ligou e eu fui até lá. Chegando lá, falei: “Gente, vamos ligar para o Lucas”. Como ele é homem e nós éramos só mulheres, precisávamos ver o que poderíamos fazer. O Lucas foi até lá e ficamos até tarde sem saber o que fazer, onde colocar aqueles idosos. Quem me conhece sabe: se eles tivessem que ficar ali, eu ficaria também.
Decidimos colocá-los em um hotel, mas vocês sabem que não é fácil pagar. O Lucas conseguiu ajuda com várias pessoas, eu ajudei, ele ajudou, e conseguimos pagar cinco diárias. Também conseguimos que esses idosos fossem para a casa da filha. Só que, chegando lá, havia uma criança com problemas de saúde e a filha estava em tratamento contra o câncer. Houve uma discussão e colocaram os dois novamente na rua.
Eles voltaram para o hotel. Daqui a pouco, me ligaram: “Rosana, os idosos estão novamente na rodoviária”. O Lucas estava viajando, eu estava sozinha. Comecei a ficar desesperada, ligando para todo mundo.
Eu liguei, mas o descaso era total. Se eu tenho que amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesma, como não consigo cuidar de dois idosos?
Liguei para a secretária e pedi: “Por favor, estou aqui na rodoviária com dois idosos. Se eles ficarem aqui cinco dias, eu vou ficar também. Não vou abandoná-los.” Gostei muito da atitude dela, viu, Julinho? Ela foi até lá comigo, ficou lá, ligou para um, ligou para outro. Eu dizia: “Gente, estamos passando por tudo isso em uma cidade deste tamanho?” Fiquei envergonhada. Aqueles dois idosos sem saber o que fazer, eu ligando para o Lucas, e a Silmara fazendo tudo o que podia: ligou para Jales, ligou para Votuporanga. Eu pensava: “Não acredito nisso.”
Daqui a pouco, Votuporanga conseguiu um abrigo. Mas quem iria levá-los? Disseram que o serviço social não podia levar. Liguei para o meu esposo. Ele disse: “Rosana, você não vai. Se acontecer um acidente na rodovia, a responsabilidade será sua.”
Eu falei: “Silmara, eu não posso ir. Não vou correr esse risco.” Ela também estava desesperada, sem saber o que fazer. Ligou para um amigo, e essa pessoa se responsabilizou em nos ajudar a pagar a diária. Ele tinha um filho desaparecido, envolvido com drogas. Eu procurei esse rapaz em todo lugar que vocês imaginarem e não o encontrei.
Fiquei entristecida, pois fomos a um lugar e não nos aceitaram. Estamos brigando todos os dias por roçagem, por tapa-buracos, mas não conseguimos garantir o mínimo que o ser humano precisa, que é amor ao próximo.
Eu vou lutar junto com os meus companheiros, e creio que vamos conseguir abrir novamente esse albergue.
Brasitânia: O distrito esquecido
As críticas à Secretaria de Obras e Planejamento também foram pesadas. O vereador Afonso comparou o planejamento do IPTU ao da zeladoria da cidade: “É o mesmo cronograma da roçagem e do tapa-buraco, que não tem planejamento coisa nenhuma. Uma vergonha, uma falta de respeito”.
Os vereadores Gabriel de Faria e Daniel Arroio reforçaram que o distrito de Brasitânia está em situação precária, com ruas intransitáveis e o cemitério local necessitando de calçamento básico. “A cidade não está dando conta nem de tampar buraco, nem de limpar”, resumiu Julinho.
Falta de Comunicação: “Guéla abaixo”
O tom geral da sessão foi de ruptura na confiança entre os poderes. O vereador Afonso desabafou sobre a postura do prefeito em eventos públicos: “O prefeito pega o microfone e agradece a ‘parceria dos vereadores’, mas numa atitude dessa que impacta a população, ninguém nos chama. É tudo guéla abaixo”.
Os parlamentares aprovaram os requerimentos de informações e esperam que o Executivo recue da decisão do IPTU digital, sob pena de ver a arrecadação municipal “desmoronar”, como previu o vereador André, diante da dificuldade de acesso dos contribuintes aos boletos.
Principais pontos de crítica à administração:

- Fim do IPTU impresso: Ausência de suporte para idosos, risco de golpes e filas quilométricas no Poupatempo.
- Assistência Social: Falta de um albergue público e dificuldades no atendimento a idosos desamparados.
- Zeladoria Urbana: Críticas severas à falta de roçagem, ruas esburacadas e abandono do distrito de Brasitânia.
- Gestão Política: Tomada de decisões unilaterais e falta de diálogo com o Poder Legislativo.








