terça, 7 de julho de 2026

Uso de redes sociais muda forma como jovens lidam com a política e gera bolhas digitais

As redes sociais estão transformando profundamente a maneira como os jovens brasileiros se relacionam com a política, trazendo efeitos colaterais preocupantes como o isolamento, a personalização de propostas e o aumento da polarização. Um estudo qualitativo coordenado pela pesquisadora Catharina Vale, da Universidade Católica Portuguesa, investigou esse cenário ao ouvir jovens de 21 a 34 anos que vivem em diversas cidades brasileiras. Essa faixa etária, que representa quase um terço do eleitorado do país, cresceu junto com a popularização da internet e praticamente desconhece a vivência política fora do ambiente digital, o que a torna muito mais vulnerável às lógicas das plataformas.

De acordo com a pesquisa, o cansaço e a ansiedade provocados por discussões agressivas na internet fizeram com que esses usuários adotassem um mecanismo de defesa apelidado de “curadoria do eu”. Diante do esgotamento mental e de desabafos como o medo de perder o controle emocional em discussões, os jovens passaram a filtrar deliberadamente o conteúdo que consomem. Eles bloqueiam opiniões contrárias, silenciam termos desconfortáveis e admitem viver em bolhas digitais onde se sentem mais felizes e protegidos, contando ainda com a ajuda dos algoritmos para manter longe de suas telas tudo o que cause divergência.

Embora funcione como um escudo psicológico individual, essa prática empobrece o debate público e fragiliza a democracia. A pesquisadora alerta que, ao afastar o contraditório, o debate coletivo perde espaço para grupos homogêneos que pensam da mesma forma, o que acaba empurrando as discussões para os extremos e acirrando a polarização. Além disso, essa dinâmica faz com que a juventude valorize mais a conexão pessoal e direta com uma figura pública na tela do que a trajetória partidária ou as propostas reais de um candidato.

Essa mudança começou a ganhar contornos claros no Brasil a partir das manifestações populares de 2013, período que coincidiu com o avanço tecnológico das redes sociais e o processamento de dados dos usuários. Desde então, a influência das telas no voto e no ativismo se intensificou a cada eleição. Para os especialistas, essa nova forma de consumir e fazer política veio para ficar e deve moldar o cenário eleitoral e social do país pelas próximas décadas, à medida que essas gerações conectadas assumem novos papéis na liderança da nação.

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