segunda, 6 de julho de 2026

Tecnologia brasileira inédita transforma umidade do ar em água potável usando tecido reciclado

Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com o Instituto Granado de Tecnologia da Poliacrilonitrila (IGTPAN), de Jacareí (SP), desenvolveram um sistema inovador capaz de produzir água potável capturando a umidade presente na atmosfera. A grande novidade do projeto é o uso de um polímero superabsorvente feito a partir da reciclagem de resíduos e sobras da indústria têxtil, criando uma alternativa sustentável e de baixo custo para o abastecimento de regiões secas ou com escassez hídrica.

Batizado de PANSAP, o material funciona como uma espécie de esponja tecnológica que retém o vapor de água do ar em sua superfície. Posteriormente, por meio de um aquecimento moderado, essa umidade é liberada e transformada em água líquida. Durante os testes experimentais, que duraram quase um ano, o protótipo conseguiu produzir entre 4 e 6 litros de água por dia com um gasto de energia bastante reduzido. O polímero desenvolvido no Brasil já teve sua patente aprovada no país e também nos Estados Unidos.

De acordo com a pesquisadora Valquiria Campos, professora da Unesp em Sorocaba, a tecnologia foi pensada para ser uma solução barata e acessível para comunidades isoladas ou que vivem em áreas áridas e semiáridas, onde métodos tradicionais — como a dessalinização da água do mar ou a perfuração de poços artesianos — são inviáveis devido ao alto custo e à falta de infraestrutura. Nilton Granado, inventor do equipamento e pesquisador do IGTPAN, reforça que a produção de água a partir da atmosfera será vital para grandes cidades do mundo que sofrem com a seca, citando o exemplo de Lima, no Peru, uma metrópole localizada em um deserto que quase não registra chuvas.

O processo de fabricação do sistema baseia-se no conceito de economia circular, transformando o que seria lixo em recursos valiosos. Além de reaproveitar roupas velhas e retalhos de fibra acrílica que seriam descartados na natureza, a rota química utilizada no laboratório recupera gases poluentes e os transforma em fertilizantes para a agricultura. Do ponto de vista econômico, o polímero brasileiro custa cerca de US$ 2,50 por quilo, sendo imensamente mais barato do que outros materiais avançados testados internacionalmente, que chegam a custar milhares de dólares por grama.

O funcionamento do equipamento é simples: o ar ambiente circula por placas do polímero que absorvem a umidade. Quando o material fica cheio, ele é aquecido a temperaturas entre 55 °C e 80 °C para liberar o vapor, que depois é resfriado até virar água líquida. Os cientistas descobriram que manter o aquecimento nessa faixa moderada é o segredo para garantir uma água totalmente pura e sem odores. Como o líquido final passa por um processo semelhante à destilação, ele é extremamente limpo, necessitando apenas da adição posterior de sais minerais para se tornar ideal para o consumo humano.

Além de eficiente, o sistema é ecologicamente correto e pode funcionar de forma 100% autônoma usando energia solar, o que facilita sua instalação em locais sem acesso à rede elétrica. Os testes mostraram que o material é altamente resistente, podendo ser usado mais de 2.500 vezes com uma vida útil estimada em mais de dez anos. Por ser um modelo modular, basta juntar mais placas para aumentar o volume de água produzido. O projeto, que conta com o apoio financeiro da Fapesp, se prepara agora para o seu primeiro grande desafio prático: um teste de campo em uma comunidade carente nos arredores de Lima, no Peru.

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