

Uma profissional com mais de três décadas de dedicação ao ensino público engrossou as estatísticas da violência escolar no interior de São Paulo. Aos 67 anos, a professora Heloisa Barbara Cevada Esperandio tomou a decisão de abrir mão de seu cargo na rede municipal de Olímpia após ser agredida fisicamente por estudantes. O caso joga luz sobre um problema crônico enfrentado por educadores: uma pesquisa recente revelou que mais de 65% dos docentes atuantes no estado já foram vítimas de algum tipo de agressão no ambiente de trabalho.

Depois de ter se aposentado e passado a se dedicar ao artesanato e a aulas voluntárias de reforço, Heloisa foi incentivada por colegas a retornar oficialmente às salas de aula. Ela passou em um processo seletivo e assumiu uma turma de segundo ano do Ensino Fundamental. No entanto, logo nos primeiros dias letivos, a rotina foi marcada pela indisciplina e pelo comportamento hostil de alguns menores. A situação saiu do controle quando a professora tentou separar uma briga física entre dois alunos que se agarravam pelo pescoço. Ao intervir, ela acabou sendo o alvo da fúria dos estudantes, sofrendo mordidas e chutes que deixaram hematomas pelo corpo.
O impacto do episódio foi além das marcas físicas. Profundamente abalada, Heloisa pediu exoneração e, mesmo após mais de um ano do ocorrido, ainda precisa de suporte psicológico e psiquiátrico para lidar com os traumas emocionais da agressão. Procurada, a Secretaria Municipal de Educação de Olímpia informou que adotou todas as providências administrativas e pedagógicas na época, prestando acolhimento e acionando uma equipe multidisciplinar para acompanhar os envolvidos, além de reforçar projetos de combate ao bullying em parceria com as forças de segurança locais.
A realidade vivida pela professora reflete um cenário alarmante mapeado pelo Centro do Professorado Paulista (CPP). Um levantamento feito com 1.440 educadores das redes estadual, municipal e privada revelou que, além do alto índice de agressões, cerca de 62,9% dos profissionais afirmam não se sentir seguros dentro das escolas. O estudo aponta ainda que os próprios estudantes são os principais autores de violência verbal e psicológica, muitas vezes apoiados pela falta de cooperação de seus familiares. Outro dado preocupante é que a maioria dos entrevistados tem entre 45 e 74 anos, o que prova que o tempo de carreira e a experiência não têm sido suficientes para blindar os professores da insegurança generalizada que tomou conta das salas de aula.







