domingo, 4 de outubro de 2026

Presença de cineastas negros ganha destaque no cinema nacional, mas setor ainda enfrenta fortes desigualdades financeiras

A recente pré-seleção de obras dirigidas por cineastas negros na corrida para representar o Brasil no Oscar reacendeu o debate sobre a representatividade e o financiamento no audiovisual brasileiro. Dos seis filmes finalistas para tentar uma vaga na premiação internacional — cujo escolhido foi “Feito Pipa”, do diretor Allan Deberton —, dois contavam com a assinatura de realizadores negros: “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, e “Nosso Segredo”, de Grace Passô. Apesar do reconhecimento crítico dessas produções, entidades do setor alertam que a participação de artistas não-brancos no mercado e o acesso aos recursos públicos continuam desproporcionais e distantes da realidade demográfica do país.

Em carta aberta direcionada ao setor cultural e aos candidatos nas eleições deste ano, a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan) aponta disparidades profundas na distribuição de verbas e oportunidades de trabalho. Dados trazidos pela entidade revelam que 94% dos filmes que receberam investimentos federais foram dirigidos por pessoas brancas, índice que ultrapassa 90% em produções com orçamentos superiores a R$ 5 milhões. Além disso, no mercado formal de trabalho da televisão aberta e do cinema, os profissionais negros registram menor participação, estão concentrados em funções técnicas de menor remuneração e enfrentam maior informalidade, com mulheres negras ocupando a faixa de menor rendimento salarial.

Para enfrentar esse cenário, a associação defende o aprimoramento das políticas afirmativas e maior rigor na fiscalização do fomento público. Embora reconheça avanços impulsionados por instrumentos como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc — que viabilizaram a realização de diversos festivais de cinema negro pelo país —, a entidade alerta para casos de fraudes na autodeclaração e propõe a adoção de bancas de heteroidentificação. A pauta da Apan inclui ainda a ampliação da cota de tela para proteger o cinema nacional frente às produções estrangeiras e o estímulo à exibição de filmes com recorte racial nas escolas públicas, visando integrar a produção audiovisual com a formação de novas gerações de espectadores.

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