

Cientistas da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) estão desenvolvendo uma técnica inovadora que promete aumentar a oferta de órgãos para transplante no Brasil. O estudo utiliza o medicamento anakinra, uma substância já aprovada e considerada segura, para tratar rins fora do corpo humano antes que eles sejam implantados nos receptores. A iniciativa busca combater um problema crônico na saúde pública: o alto índice de descarte de órgãos. De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), cerca de 30% dos rins captados de doadores falecidos acabam sendo rejeitados por não atingirem os critérios de qualidade necessários, mesmo com mais de 30 mil pessoas aguardando na fila.

O foco central da pesquisa é reduzir a inflamação que ocorre naturalmente quando o órgão é retirado do doador. Segundo o coordenador do estudo, professor Mário Abbud Filho, esse processo inflamatório é um dos principais responsáveis por complicações pós-cirúrgicas e pelo descarte preventivo dos rins. Ao aplicar o medicamento diretamente no órgão enquanto ele está fora do corpo, os pesquisadores conseguem “recondicioná-lo”, tornando viável o uso de até 30% dos rins que hoje seriam jogados fora. Este avanço foi recentemente premiado como o melhor trabalho científico no Congresso Latino-Americano de Transplantes, realizado no Paraguai.
A bióloga Ludimila Leite Marzochi e a professora Heloísa Cristina Caldas, que também coordenam o projeto, explicam que a estratégia foi pensada para ser aplicada no Sistema Único de Saúde (SUS). O plano envolve o uso do medicamento associado a máquinas de perfusão, que simulam a circulação sanguínea e mantêm o órgão vivo por mais tempo. Atualmente, os testes estão em fase experimental com suínos, mas o cronograma para 2026 prevê testes em rins humanos descartados em um centro de pesquisa nos Estados Unidos. Se a eficácia for comprovada em humanos, a técnica poderá ser integrada aos hospitais públicos em um período de três a cinco anos.
O impacto dessa inovação pode ir além dos transplantes renais. Como a inflamação tratada pelo estudo é um mecanismo comum a outros tecidos, os pesquisadores acreditam que a mesma lógica poderá ser aplicada no futuro para preservar fígados, corações e pulmões. Para os pacientes que dependem do SUS, a pesquisa representa uma esperança concreta de redução no tempo de espera, podendo viabilizar centenas de cirurgias adicionais todos os anos e salvando vidas que hoje esbarram na escassez de órgãos em condições ideais.









