domingo, 28 de junho de 2026

Pássaros de canto dominam o tráfico de animais silvestres e financiam o crime organizado em SP

O tráfico de animais silvestres no estado de São Paulo tem um alvo bem definido: os pássaros de canto. De janeiro de 2023 a abril de 2026, a Polícia Militar Ambiental paulista resgatou cerca de 43 mil animais, e impressionantes 90% desse total eram aves. O comércio ilegal é altamente lucrativo e serve como uma importante fonte de financiamento para facções criminosas. Dependendo da qualidade do canto, um único exemplar da espécie trinca-ferro pode alcançar valores de mercado que variam entre R$ 200 mil e R$ 300 mil.

O crime organizado atua capturando os animais diretamente na natureza ou criando filhotes a partir de matrizes já presas. Para inflar os preços, os criminosos promovem torneios clandestinos de canto, onde os pássaros recebem medalhas falsas para atrair compradores dispostos a pagar fortunas, em um esquema que também envolve a lavagem do dinheiro arrecadado. O Brasil é um ator central nesse cenário, respondendo por cerca de 15% de todo o contrabando global de fauna, segundo dados das Nações Unidas. Entre as dez espécies mais apreendidas em solo paulista, a única que não voa é o jabuti-piranga, cuja procura muitas vezes é motivada pela falsa crença popular de que o réptil embaixo da cama cura a asma infantil. Os 10% restantes das apreensões englobam serpentes, jacarés e mamíferos como saguis, além de registros isolados de onças-pintadas e tamanduás-bandeira.

Para simular que os animais foram nascidos em criadouros legalizados, os traficantes recorrem a métodos cruéis de mutilação. Eles adulteram as anilhas, que são pequenos anéis metálicos fornecidos pelo Ibama que funcionam como a “carteira de identidade” do pássaro. Como esse anel deve ser colocado nos primeiros dias de vida da ave, quando os ossos ainda são flexíveis, os criminosos quebram os dedos de pássaros adultos capturados na mata para forçar a entrada do aro. Por causa dessas graves lesões nas patas, muitas aves resgatadas chegam às bases policiais sem conseguir sequer se equilibrar nos poleiros das gaiolas.

Para combater essa realidade, a Polícia Militar Ambiental de São Paulo — considerada a maior força de proteção à natureza da América Latina, com mais de 2.100 policiais — conta com ferramentas de inteligência que cruzam dados do Ibama para mapear cativeiros ilegais, além do apoio de investigações da Polícia Civil. O papel dos cidadãos também é fundamental, podendo realizar denúncias anônimas pelo telefone 190, pelo Disque-Denúncia 181 ou por canais digitais como o aplicativo Denúncia Ambiente. Manter animal silvestre em cativeiro sem autorização é crime previsto em lei, e a pena pode aumentar se envolver espécies ameaçadas ou maus-tratos. A polícia reforça que, mesmo quando o comprador adquire o bicho apenas por “gostar da cultura” e sem a intenção de maltratar, ele acaba financiando diretamente a engrenagem do crime organizado.

Após o resgate nas operações, o destino dos animais em São Paulo é o Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres (Cetras), localizado no Parque Ecológico do Tietê, na Zona Leste da capital. O espaço recebe cerca de 10 mil bichos por ano e oferece tratamento com veterinários e biólogos para reabilitar os sobreviventes. O processo de recuperação é lento, pois os animais que passaram muito tempo presos perdem força muscular e a capacidade de buscar o próprio alimento. Cerca de metade dos animais atendidos pelo órgão consegue recuperar a autonomia e é devolvida à natureza em seus biomas de origem. Os demais, que carregam sequelas físicas permanentes ou ficaram dóceis demais para sobreviver sozinhos, são encaminhados para zoológicos e criadouros autorizados.

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