

Uma pesquisa inédita realizada pela organização não governamental ACT Promoção da Saúde lançou luz sobre uma prática que vem crescendo no mercado corporativo: o blackwashing. O estudo de 133 páginas faz uma provocação direta ao questionar se as grandes marcas estão, de fato, engajadas na pauta racial ou se apenas usam a causa para melhorar a própria imagem e impulsionar suas vendas. O relatório completo detalha as principais estratégias de marketing utilizadas por companhias que adotam uma falsa aparência antirracista.

O termo blackwashing pode ser traduzido livremente como uma “lavagem racial”, funcionando de forma parecida ao greenwashing (quando empresas fingem ser sustentáveis) e ao pinkwashing (quando usam a causa LGBTQIA+ de forma superficial). Segundo os autores do estudo, a prática é uma tática corporativa que se apropria da luta contra o racismo para disfarçar a busca implacável pelo lucro. A grande crítica é que essas ações servem como uma vitrine bonita de engajamento social, mas não enfrentam as desigualdades raciais de maneira profunda e estrutural.
Os pesquisadores identificaram que o blackwashing se manifesta de várias formas no mercado. Algumas empresas praticam a divulgação seletiva, mostrando apenas os setores onde houve alguma melhora na diversidade e escondendo onde a situação piorou. Outras adotam políticas vazias que prometem grandes transformações, mas que têm pouco poder real de mudança, ou utilizam selos e certificações duvidosas para parecerem aliadas da população negra. Também é comum o uso de propagandas enganosas, parcerias com ONGs apenas por interesse comercial, uso estratégico de influenciadores negros e até a criação de programas voluntários sem fiscalização eficiente para fingir que o ambiente de trabalho é igualitário.


Para provar que essa representatividade muitas vezes não passa de uma fachada, o relatório utilizou dados do Instituto Ethos coletados junto às 1,1 mil maiores empresas do Brasil. O contraste é gritante: embora mais de 55% da população brasileira se declare preta ou parda, esse grupo ocupa menos de 6% das cadeiras nos conselhos de administração e menos de 14% dos cargos de diretoria e gerência executiva, sendo a exclusão ainda maior para as mulheres negras. Além disso, a maioria dessas organizações não divulga dados transparentes sobre a cor ou raça de seus chefes e líderes.
Os autores do estudo concluem que essa maquiagem da diversidade não é um erro isolado, mas sim uma engrenagem calculada que mantém a desigualdade de pé enquanto gera dinheiro para as marcas. Para os especialistas, combater essa prática exige muito mais do que denúncias na internet ou pedidos de desculpas públicos. É necessário construir regras e respostas firmes que mexam na estrutura do mercado e obriguem as empresas a promoverem mudanças reais e urgentes na sociedade.








