quarta, 22 de julho de 2026

ONG alerta sobre “blackwashing”, a falsa maquiagem antirracista usada por empresas para lucrar

Uma pesquisa inédita realizada pela organização não governamental ACT Promoção da Saúde lançou luz sobre uma prática que vem crescendo no mercado corporativo: o blackwashing. O estudo de 133 páginas faz uma provocação direta ao questionar se as grandes marcas estão, de fato, engajadas na pauta racial ou se apenas usam a causa para melhorar a própria imagem e impulsionar suas vendas. O relatório completo detalha as principais estratégias de marketing utilizadas por companhias que adotam uma falsa aparência antirracista.

O termo blackwashing pode ser traduzido livremente como uma “lavagem racial”, funcionando de forma parecida ao greenwashing (quando empresas fingem ser sustentáveis) e ao pinkwashing (quando usam a causa LGBTQIA+ de forma superficial). Segundo os autores do estudo, a prática é uma tática corporativa que se apropria da luta contra o racismo para disfarçar a busca implacável pelo lucro. A grande crítica é que essas ações servem como uma vitrine bonita de engajamento social, mas não enfrentam as desigualdades raciais de maneira profunda e estrutural.

Os pesquisadores identificaram que o blackwashing se manifesta de várias formas no mercado. Algumas empresas praticam a divulgação seletiva, mostrando apenas os setores onde houve alguma melhora na diversidade e escondendo onde a situação piorou. Outras adotam políticas vazias que prometem grandes transformações, mas que têm pouco poder real de mudança, ou utilizam selos e certificações duvidosas para parecerem aliadas da população negra. Também é comum o uso de propagandas enganosas, parcerias com ONGs apenas por interesse comercial, uso estratégico de influenciadores negros e até a criação de programas voluntários sem fiscalização eficiente para fingir que o ambiente de trabalho é igualitário.

Para provar que essa representatividade muitas vezes não passa de uma fachada, o relatório utilizou dados do Instituto Ethos coletados junto às 1,1 mil maiores empresas do Brasil. O contraste é gritante: embora mais de 55% da população brasileira se declare preta ou parda, esse grupo ocupa menos de 6% das cadeiras nos conselhos de administração e menos de 14% dos cargos de diretoria e gerência executiva, sendo a exclusão ainda maior para as mulheres negras. Além disso, a maioria dessas organizações não divulga dados transparentes sobre a cor ou raça de seus chefes e líderes.

Os autores do estudo concluem que essa maquiagem da diversidade não é um erro isolado, mas sim uma engrenagem calculada que mantém a desigualdade de pé enquanto gera dinheiro para as marcas. Para os especialistas, combater essa prática exige muito mais do que denúncias na internet ou pedidos de desculpas públicos. É necessário construir regras e respostas firmes que mexam na estrutura do mercado e obriguem as empresas a promoverem mudanças reais e urgentes na sociedade.

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