quinta, 9 de julho de 2026

Oito em cada 10 mortos em ações policiais são negros, mostra relatório

As mortes decorrentes de intervenções policiais em nove estados brasileiros apresentaram um crescimento de 6,4% em 2025 na comparação com o ano anterior, somando 4.330 vítimas. Desse total, quase 90% das pessoas que perderam a vida eram negras, o que equivale a 3.104 mortes. Os dados foram revelados pela 7ª edição do relatório “Pele Alvo – entre Racismo e Letalidade, o Amanhã”, divulgado pela Rede de Observatórios do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) com base em informações oficiais obtidas via Lei de Acesso à Informação junto às secretarias de segurança do Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo.

O levantamento acende um alerta para a juventude das periferias e favelas, uma vez que mais de 64% dos mortos tinham até 29 anos de idade, incluindo 310 crianças e adolescentes. Segundo os pesquisadores do centro de estudos, as chances de uma pessoa negra ser morta por agentes de segurança pública são, em média, quatro vezes maiores do que as de uma pessoa branca. Esse cenário de desigualdade racial se intensifica em estados como o Rio de Janeiro, onde a probabilidade é seis vezes maior, e em Pernambuco, onde chega a ser 11 vezes superior. O estudo aponta que, mesmo com transformações no crime organizado pelo país — impulsionadas pela expansão de facções do Sudeste para o Norte e o Nordeste —, o perfil das vítimas prioritárias do aparato estatal continua sendo o mesmo: homens, jovens e negros.

No recorte regional, quatro estados atingiram em 2025 os seus maiores patamares de letalidade policial desde 2019: Ceará, Maranhão, Pará e São Paulo. O Maranhão liderou o crescimento com uma alta recorde de 86,8% em relação a 2024, avanço que os especialistas associam à chegada de facções nacionais aliadas a grupos locais na disputa por rotas criminosas. Os pesquisadores também criticam o apagão de dados sobre raça nesses locais, embora tenha havido melhoras no preenchimento do perfil étnico-racial das vítimas no Ceará e no Maranhão. Na Bahia, apesar de uma leve queda nos índices, a violência permaneceu constante: em apenas 19 dias de todo o ano de 2025 não foram registradas mortes por intervenção policial. Pernambuco teve alta de 30,8%, enquanto São Paulo subiu 2,3% e o Pará avançou 12,3%. Por outro lado, o Amazonas manteve o patamar de 43 mortes e o Piauí se destacou como a única unidade federativa com redução no índice, registrando uma queda de 16,67%, o que o relatório atribui à forte pressão e fiscalização de movimentos sociais e do Ministério Público local.

O Rio de Janeiro registrou um aumento de 13,8% na letalidade policial. Os analistas questionaram o uso institucional de termos como “narcoterroristas” para classificar mais de uma centena de mortos em operações nos Complexos da Penha e do Alemão, argumentando que essa linguagem serve para normalizar o uso da violência extrema pelas forças fluminenses.

Procuradas para comentar os achados do relatório, apenas algumas secretarias estaduais se manifestaram. A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco declarou que suas forças de segurança atuam sob rigorosos critérios operacionais, técnicos e legais, priorizando a preservação de vidas sem qualquer tipo de distinção pessoal ou de cor de pele. A pasta também reforçou que todas as ocorrências com mortes são enviadas para investigação na Corregedoria-Geral e que segue investindo na qualificação profissional e em inteligência para reduzir confrontos. Já a Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro ressaltou que os indicadores oficiais acumulados de janeiro a maio de 2026 apontam para uma redução de 12% nas mortes por intervenção de agentes do Estado em comparação ao mesmo período de 2025, atingindo o menor patamar desde 2014. O governo fluminense reforçou que suas polícias agem baseadas em inteligência e planejamento, mas justificou que os confrontos armados decorrem da resistência violenta apresentada pelas organizações criminosas que atacam os policiais. Os demais estados não enviaram posicionamento.

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