

Fadiga, febre, mal-estar, enjoo e pele amarelada são os sintomas mais conhecidos das hepatites virais, mas o grande perigo reside no fato de que muitas pessoas infectadas nunca chegam a apresentar esses sinais. Sem um diagnóstico adequado, a doença pode evoluir silenciosamente por anos, provocando danos progressivos ao fígado. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 304 milhões de pessoas no mundo vivem com as hepatites B ou C, formas que frequentemente se tornam crônicas e causam complicações graves, resultando em mais de um milhão de mortes anualmente em todo o planeta. No Brasil, entre os anos 2000 e 2024, foram confirmados mais de 800 mil casos e cerca de 45 mil mortes associadas aos tipos A, B, C e D. O gestor médico de Desenvolvimento Clínico do Instituto Butantan, Eolo Morandi, alerta que a baixa taxa de diagnóstico é um dos principais obstáculos para o controle das hepatites, fazendo com que as pessoas transmitam o vírus sem saber. Embora todas causem inflamação no fígado, os vírus A, B, C, D e E diferem bastante em transmissão, gravidade e prevenção.

A hepatite A é transmitida principalmente pela via fecal-oral, ou seja, pelo consumo de água ou alimentos contaminados com resíduos fecais, contato pessoal próximo em creches ou asilos, e práticas sexuais com contato oral-anal. Relacionada a condições precárias de saneamento básico e higiene, a doença teve a maior parte de seus casos concentrada nas regiões Norte e Nordeste entre 2000 e 2024, mas recentemente registrou um aumento na população adulta e masculina das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Os sintomas envolvem dores musculares, vômitos, diarreia e sinais de comprometimento do fígado, como urina escura, fezes claras e icterícia (pele e olhos amarelados). Diferente dos tipos B e C, a hepatite A não costuma evoluir para uma infecção crônica e tem caráter benigno, embora pessoas acima de 50 anos corram mais risco de complicações. Não há tratamento específico, sendo recomendado repouso, hidratação e a não automedicação para evitar sobrecarregar o fígado. A principal prevenção é a vacina fornecida pelo Instituto Butantan ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), aplicada em dose única aos 15 meses de vida, com oferta ampliada recentemente para usuários de PrEP e pessoas com doenças hepáticas crônicas.
Já a hepatite B é transmitida pelo contato com sangue ou fluidos corporais infectados, sendo muito comum a transmissão de mãe para filho durante o parto, além de relações sexuais sem proteção, compartilhamento de seringas, transfusões não testadas e o uso de materiais contaminados em tatuagens ou piercings. O grande desafio deste tipo é a capacidade de se tornar uma infecção crônica e silenciosa por décadas antes de evoluir para cirrose ou câncer de fígado. Esse risco de cronificação atinge de 90% a 95% das crianças infectadas no primeiro ano de vida, enquanto cai para menos de 5% em adultos. Por isso, a primeira dose da vacina deve ser aplicada nas primeiras 24 horas de vida. O Ministério da Saúde recomenda quatro doses para crianças (ao nascer, aos 2, 4 e 6 meses) e três doses para adultos. A prevenção também inclui o uso de camisinha e práticas seguras em procedimentos estéticos e médicos. No cenário brasileiro, a maioria das confirmações de hepatite B está nas regiões Sudeste e Sul.


A hepatite C, por sua vez, é a mais letal no país, sendo responsável por mais de 75% das mortes associadas a hepatites virais no Brasil. Sua transmissão ocorre pelo contato com sangue contaminado, e pessoas que usam drogas injetáveis representam 44% das novas infecções mundiais. Assim como as outras, ela quase não apresenta sintomas e pode evoluir para cirrose e câncer. Ainda não existe vacina para a hepatite C, o que torna o controle da exposição ao sangue e a testagem espontânea as únicas formas de prevenção. Apesar disso, ela é uma doença potencialmente curável graças aos avanços dos Antivirais de Ação Direta (AADs), que oferecem taxas de cura superiores a 95% em tratamentos de algumas semanas disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Os tipos D e E são menos comuns, mas exigem atenção. A hepatite D tem uma característica única: só infecta e se multiplica em pessoas que já possuem o vírus da hepatite B, seja por coinfecção simultânea ou por superinfecção em quem já tem a forma crônica. A presença dos dois vírus acelera a destruição do fígado. Como o vírus D depende do B para sobreviver, a vacina contra a hepatite B serve como proteção indireta e eficaz. Já a hepatite E funciona de forma semelhante ao tipo A, com transmissão fecal-oral e cura espontânea na maioria das vezes. A maior preocupação do tipo E está nas grávidas, que correm sérios riscos de complicações no terceiro trimestre devido a alterações hormonais e imunológicas que aceleram a replicação do vírus.
O Brasil tem sido destaque positivo no combate a essas doenças e foi citado pela OMS devido ao progresso em evitar a transmissão da hepatite B de mãe para filho, já que a cobertura vacinal em recém-nascidos saltou de 77% em 2023 para 98% em 2025. Entre 2014 e 2024, a taxa de mortes por hepatite B caiu 50%, e a de hepatite C reduziu 60% no país. O objetivo global da OMS é eliminar as hepatites como problema de saúde pública até 2030, reduzindo novas infecções em 90% e mortes em 65%. Para que a meta seja alcançada, os especialistas reforçam que a conscientização e a realização de pelo menos um teste de sangue anual são atitudes fundamentais para quebrar a corrente de transmissão e salvar milhões de vidas.








