segunda, 10 de agosto de 2026

Novas regras para venda de armas nos EUA devem fortalecer o crime organizado no Brasil, alertam especialistas

Um novo pacote do governo de Donald Trump, composto por 34 medidas que facilitam a compra de armas nos Estados Unidos, acendeu um alerta vermelho no Brasil. Segundo especialistas em segurança pública, a flexibilização dessas regras deve facilitar diretamente o acesso de facções criminosas brasileiras a armamentos de grosso calibre. Entre as propostas do Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos EUA estão o afrouxamento na checagem de antecedentes criminais, a diminuição do tempo de guarda de registros pelos lojistas e até a permissão para a compra de armamento pelos correios.

A preocupação dos estudiosos se baseia no fato de que os Estados Unidos já são um dos maiores fornecedores mundiais de armas para o crime organizado. Dados revelam que o armamento norte-americano abastece 80% dos cartéis no México, a maior parte das gangues no Haiti e 73% das armas apreendidas no Caribe. No Brasil, o cenário não é diferente: um estudo recente apontou que, de 1,7 mil fuzis ilegais apreendidos na região Sudeste entre 2019 e 2023, mais da metade (54%) tinha origem estadunidense. Isso coloca os EUA no topo do ranking de fornecedores dessa ferramenta crucial para a expansão do narcotráfico.

O consultor sênior do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani, classifica a situação como alarmante. Ele explica que uma das maiores brechas atuais, que tende a piorar, é a venda de peças de armas semiprontas sem a exigência de um registro rigoroso. Como são enviadas desmontadas, muitas vezes por correspondência comum, essas peças passam facilmente despercebidas pela fiscalização alfandegária. Sem o treinamento adequado e diante de uma arma incompleta, os operadores de raio-x têm imensa dificuldade em barrar o contrabando.

A situação de vulnerabilidade nas fronteiras sul-americanas se agravou em setembro de 2025, quando o governo Trump retirou as restrições de exportação de armas de fogo para 36 países. Na lista, estão nações que fazem fronteira com o Brasil e possuem histórico de desvio de armamento, como Paraguai, Colômbia, Bolívia e Peru. A justificativa oficial do governo americano foi aumentar a competitividade e o lucro dos seus fabricantes, mas, na prática, isso significa exportar armas com uma avaliação de risco muito menor, facilitando o trabalho de traficantes.

Para o cientista social Robson Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), existe uma grande hipocrisia na política externa dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que o governo americano promete combater duramente os cartéis latino-americanos, classificando-os como terroristas, ele cede à pressão do forte lobby armamentista e facilita o acesso global às armas.

O pesquisador destaca que falta um esforço real dos Estados Unidos para secar a fonte bélica e financeira do crime organizado, lembrando que o lucro do varejo das drogas e das armas beneficia a própria economia americana. Os números confirmam essa tese: apenas entre 2008 e 2024, a indústria de armas e munições nos EUA viu seu faturamento crescer 379%, ultrapassando a marca de 91 bilhões de dólares anuais. Para os especialistas, os interesses econômicos dessa indústria continuam se sobrepondo à segurança pública de países como o Brasil.

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