terça, 30 de junho de 2026

Mulheres negras jovens enfrentam as maiores barreiras no mercado de trabalho brasileiro, aponta estudo

Embora o mercado de trabalho no Brasil venha mostrando sinais de melhora recente, com a redução do desemprego e o aumento geral da renda, a prosperidade não tem alcançado a todos da mesma maneira. As mulheres negras jovens continuam na base da pirâmide socioeconômica, registrando os piores índices de desocupação, informalidade, rendimento e desalento no país. A constatação faz parte de um relatório divulgado pela Rede Multiatores MUDE com Elas, desenvolvido pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert). O levantamento foi baseado nos microdados da PNAD Contínua de 2025, pesquisa oficial realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados revelam que as desigualdades estruturais persistem de forma cruel para as brasileiras de 14 a 29 anos, mesmo quando há avanços nos níveis de estudo formal. O abismo social começa cedo: na faixa entre 14 e 17 anos, a taxa de desemprego entre as jovens negras atinge 24,7%, um número 1,4 vez maior do que o registrado entre os homens brancos da mesma idade. Esse cenário se agrava no período de transição da escola para o mercado de trabalho, entre os 18 e 24 anos, quando a desocupação delas fica em 16,5%, superando em 1,6 vez a dos homens brancos. A disparidade atinge o ápice no grupo de 25 a 29 anos: a taxa de desemprego das mulheres negras é de 10,3%, o que representa quase o dobro do índice das mulheres brancas e impressionantes 2,8 vezes a taxa dos homens brancos.

Segundo a coordenadora da Rede Multiatores pelo Ceert, Shirley Santos, os resultados evidenciam que o acesso à educação, por si só, não basta para resolver o problema. Existem engrenagens históricas de exclusão que continuam operando no ambiente corporativo e na sociedade, envolvendo racismo estrutural, discriminação em processos seletivos e de promoção, falta de redes de contatos e a sobrecarga com o trabalho doméstico e de cuidado com familiares. A pesquisadora pontua ainda que o local de moradia interfere diretamente no sucesso profissional, visto que as jovens das periferias enfrentam severas dificuldades de transporte público, falta de infraestrutura urbana e isolamento dos grandes centros de oportunidades.

A desigualdade também é evidente quando o assunto é o bolso e a carteira assinada. Em 2025, o salário médio das mulheres negras equivaleu a apenas 46,5% do ganho dos homens brancos, mantendo uma histórica diferença de 53,5% que quase não se moveu nos últimos anos. Além disso, a taxa de informalidade — os bicos e trabalhos sem direitos garantidos — atinge 39,1% desse grupo, ficando cerca de 10% acima do índice das jovens brancas. Na análise regionalizada, a Região Metropolitana de São Paulo repete o padrão de exclusão: enquanto um homem branco recebe, em média, R$ 3.926, a jovem mulher negra ganha R$ 2.236. Na faixa de 25 a 29 anos na capital paulista, a distância dispara, com eles recebendo R$ 5.323 frente aos R$ 2.569 delas.

Tantas barreiras resultam no chamado desalento, que ocorre quando a pessoa desiste de procurar emprego por acreditar que não terá chances. As mulheres negras lideram essa triste estatística, representando 38,7% de toda a juventude desalentada do Brasil, número que sobe para 44,2% quando observado o grupo de 25 a 29 anos. Shirley Santos reforça que as análises estatísticas revelam apenas uma parte do problema, e que a experiência das organizações sociais ajuda a entender o peso do racismo institucional no cotidiano dessas jovens.

O relatório conclui que, apesar de fundamentais, as cotas raciais e sociais sozinhas não são rápidas o suficiente para reverter esse quadro. Para o Ceert, o país necessita urgentemente de políticas públicas e privadas combinadas que garantam a permanência estudantil e a ascensão dessas mulheres a cargos de liderança. O estudo sugere caminhos eficazes que já colhem frutos pelo país, como a expansão de creches em tempo integral para apoiar mães jovens, programas de qualificação profissional voltados para a juventude negra, estabelecimento de metas de diversidade nas empresas privadas e incentivos para a formalização do trabalho na periferia. De acordo com a coordenação do projeto, uma transformação real na economia e no mercado de trabalho só acontecerá de fato quando o Brasil enfrentar com investimentos sérios as desigualdades de gênero e raça que organizam a sua estrutura social.

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