

O Brasil registrou 37.150 mortes no trânsito, e o grande motor desse cenário alarmante é o aumento vertiginoso dos acidentes fatais envolvendo motocicletas. Ao todo, 15.459 motociclistas perderam a vida nas estradas e ruas do país, o que significa que o segmento responde por 41,6% de todos os óbitos no trânsito brasileiro. Os dados foram revelados pelo Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O relatório traça um comparativo histórico preocupante: embora o número total de mortes no trânsito tenha caído cerca de 20% no acumulado de uma década — caindo de 43.780 óbitos para o patamar atual —, as tragédias com motos fizeram o caminho inverso, saltando de 28,7% do total de vítimas para quase metade de todas as ocorrências fatais.

Os pesquisadores apontam que a explosão desses índices está diretamente ligada à consolidação da economia de aplicativos de entrega e transporte, que transformou as duas rodas em uma ferramenta de sobrevivência financeira para milhões de brasileiros, com impactos ainda mais profundos nas regiões Norte e Nordeste. Em um intervalo de apenas cinco anos, o volume de mortes de motociclistas saltou 38%. A taxa geral de mortalidade nas vias ficou em 17,5 por 100 mil habitantes, um índice menor do que o registrado dez anos antes, mas que voltou a acender o sinal de alerta dos especialistas por apresentar uma tendência de crescimento acelerado e constante nos últimos meses.
De acordo com a análise dos técnicos, a forte pressão por produtividade no modelo de entregas e transporte por aplicativos, combinada com jornadas de trabalho exaustivas e a falta de redes de proteção social, transformou esses profissionais em um dos grupos mais vulneráveis e expostos à morte nas cidades. O coordenador do estudo, Daniel Cerqueira, explicou que o perfil das vítimas é composto majoritariamente por jovens que, por estarem em fase de desenvolvimento, tendem a se expor mais aos perigos das vias. Ele destacou ainda que a popularização dos serviços de mototáxi agrava o problema, já que coloca em risco não apenas o condutor, mas também o passageiro. O estado do Piauí foi citado como o caso mais extremo desse fenômeno no país, onde impressionantes 72,7% das mortes no trânsito envolveram motocicletas.
Para tentar conter essa crise de saúde pública e reduzir o número de famílias enlutadas, os autores do estudo defendem a adoção imediata de medidas integradas por parte das autoridades e governos. Entre as ações consideradas urgentes e indispensáveis estão a redução dos limites de velocidade em áreas urbanas críticas, o fortalecimento de campanhas educativas, melhorias estruturais no asfalto e na sinalização viária, além de uma fiscalização mais rigorosa e do desenvolvimento de novas leis que regulamentem de forma mais segura a atividade dos trabalhadores sobre duas rodas.







