sexta, 31 de julho de 2026

Mesmo com avanços recentes, mulheres e negros ainda são minoria no alto escalão do serviço público

A presença de mulheres e de pessoas negras em cargos de liderança no setor público brasileiro cresceu ao longo dos anos, mas ainda está longe de refletir a real pluralidade da sociedade. Um conjunto de três estudos inéditos revelou que, entre 1999 e 2025, os homens brancos dominaram a maior parte das posições de chefia na administração federal. Nesse período, os homens ocuparam 75% dos cargos de direção, enquanto as pessoas brancas concentraram 78% das vagas. Em contrapartida, a participação de cidadãos pretos e pardos foi de apenas 3% e 14%, respectivamente.

Os dados foram compilados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em parceria com a Fundação Lemann e o Movimento Pessoas à Frente. Os pesquisadores apontam que, embora o cenário esteja mudando gradualmente — principalmente a partir de 2022, quando as mulheres passaram a ocupar quase 40% das cadeiras de comando —, a sub-representação de gênero e raça no topo da máquina pública continua expressiva. Atualmente, a maior diversidade de perfis é encontrada em pastas específicas, como os ministérios das Mulheres e da Igualdade Racial. De acordo com os analistas, a contratação de profissionais de fora da carreira pública tem sido uma das principais portas de entrada para oxigenar o setor, uma vez que mulheres e negros aparecem com mais frequência entre os chamados recrutados externos.

O levantamento também desmistifica a ideia popular de que o topo do serviço público é movido exclusivamente por indicações políticas e apadrinhamentos. Na verdade, os dados mostram uma realidade técnica e profissionalizada: entre 1999 e 2025, a esmagadora maioria (63%) dos cargos mais altos da liderança federal — como secretarias executivas, presidências e diretorias de autarquias — foi preenchida por servidores públicos concursados de carreira. Desse grupo de diretores, 75% já acumulavam experiência prévia no setor, 86% possuíam ensino superior completo e apenas 16% estavam formalmente filiados a alguma legenda partidária.

Outro ponto que chamou a atenção no estudo foi a alta mobilidade interna desses profissionais. Embora o tempo de permanência em uma mesma chefia tenda a ser curto — com 57% dos casos durando até dois anos —, o conhecimento não se perde. A pesquisa indica que 80% dos gestores que deixam um cargo de direção continuam trabalhando para o Estado no ano seguinte. Além disso, há o chamado “efeito bumerangue”, em que 44% dos dirigentes que saem de um determinado órgão acabam retornando a ele em um momento futuro da carreira.

Para os estudiosos do Ipea, essa constante circulação de profissionais ajuda a criar uma elite burocrática experiente e capaz de manter a memória institucional viva, garantindo a continuidade de políticas públicas independentemente das trocas de governo. A subida até o topo é gradual, exigindo, em média, mais de oito anos de experiência prévia em funções comissionadas antes de o servidor alcançar o escalão máximo. Os textos finais que detalham essas descobertas serão publicados em breve no Boletim de Análise Político-Institucional do Ipea, servindo de base para novos debates sobre inovação e eficiência na gestão do Estado.

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