quarta, 22 de julho de 2026

Mais da metade dos estudantes universitários com filhos já trancou ou abandonou o curso para cuidar das crianças

Um levantamento inédito realizado por um grupo de trabalho do Ministério da Educação (MEC) revelou que a conciliação entre a rotina acadêmica e a maternidade ou paternidade é um dos principais motivos de evasão no ensino superior brasileiro. Segundo o estudo, 54,4% dos alunos de graduação que têm filhos já precisaram trancar a matrícula ou abandonar definitivamente os estudos para conseguir dar conta dos cuidados com as crianças. Na pós-graduação, esse índice também é expressivo e atinge 36,4% dos estudantes.

A pesquisa ouviu mais de 7,4 mil pessoas e traçou um perfil detalhado desse público. A esmagadora maioria dos participantes é composta por mães (86,5%) que estão tentando obter o primeiro diploma universitário na graduação. Nesse grupo, a média de idade é de 33 anos, e a maior parte estuda em universidades públicas federais (79,5%), frequenta as aulas de forma presencial (92,8%) e no período noturno (43,3%). O perfil predominante na graduação mostra mulheres negras (60,2%), solteiras (46%), que têm apenas um filho e vivem em lares com três pessoas.

A vulnerabilidade financeira dessas mães universitárias é um sinal de alerta para as autoridades. O relatório aponta que quase 25% delas sustentam a família com, no máximo, um salário-mínimo, enquanto 14,5% vivem com até meio salário e 16,1% declararam não ter renda alguma. Diante dessa realidade, os restaurantes universitários, conhecidos como RUs, tornam-se essenciais para garantir a segurança alimentar das famílias. No entanto, mais da metade das entrevistadas afirmou que os filhos não têm direito a comer nesses locais. Além disso, a falta de comunicação das instituições falha gravemente: cerca de um terço das estudantes de graduação e pós-graduação simplesmente não sabe se as crianças podem ou não frequentar o refeitório da faculdade.

O estudo também mapeou a rede de apoio dessas estudantes e constatou que a jornada costuma ser solitária. Embora 43,3% contem com a ajuda de familiares e amigos, quase 33% resolveram tudo sozinhas, sem suporte de ninguém. Apenas 5,9% têm condições financeiras de pagar por uma babá ou cuidadora, enquanto o acesso a creches públicas atende meros 7,5% do grupo. Para os especialistas do MEC, essa escassez de suporte comunitário e estatal escancara uma lacuna urgente que precisa ser corrigida por meio de políticas públicas focadas em permanência estudantil.

O cenário muda bastante quando o relatório analisa os alunos da pós-graduação, que engloba o mestrado e o doutorado. Nesse nível de ensino, a maioria dos estudantes com filhos se declara branca (56,1%) e é casada (50,6%). A situação socioeconômica desse grupo também é visivelmente melhor: mais de um terço vive com até cinco salários-mínimos e apenas 1,1% precisa subsistir com até meio piso salarial nacional, evidenciando que os obstáculos para se manter na universidade são muito mais cruéis para quem está na base do ensino superior.

Notícias relacionadas