

Uma investigação de grande impacto conduzida pelo Ministério Público de São Paulo trouxe à tona um esquema alarmante de espionagem e corrupção. A chamada Operação Infiltrados, deflagrada nesta terça-feira, dia 9 de junho de 2026, revelou que profissionais do próprio funcionalismo público — incluindo um ex-chefe de investigações da Polícia Civil, um ex-policial e um ex-estagiário da Promotoria — transformaram-se em informantes do Primeiro Comando da Capital. O grupo usava o acesso livre a sistemas secretos do Estado para vazar relatórios e extorquir criminosos de alto poder aquisitivo que estavam na mira da Justiça.

As apurações apontam que um dos alvos do vazamento era um núcleo da facção que planejava o assassinato do promotor Amauri Silveira Filho, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco. O atentado acabou sendo descoberto e evitado pelas forças de segurança em agosto do ano passado, durante a Operação Pronta Resposta. A nova fase das investigações mostra que o grupo de espiões usava as informações privilegiadas de forma ambiciosa: eles chegaram a cobrar uma propina de 500 mil reais de Maurício Silveira Zambaldi, conhecido como “Dragão”, apontado como o grande operador de lavagem de dinheiro do PCC, para abafar o envio de provas que o incriminavam.
O coração dessa fraude eletrônica funcionava por meio do bacharel em direito Gabriel Lira de Jesus. Segundo o Ministério Público, há suspeitas de que ele tenha se candidatado e entrado para o programa de estágio da promotoria criminal de Campinas com a intenção deliberada de roubar dados de investigações. Mensagens diretas de cobrança foram achadas no celular do traficante Dragão, ligando o estudante ao pedido de suborno meio milhão de reais. Após os primeiros flagrantes do ano passado, o jovem deixou o órgão e passou a atuar em um escritório de advocacia em Campinas, local que também foi vasculhado pelos agentes nesta terça-feira.


O esquema contava ainda com a experiência de Itamar Gomes da Silva, um ex-policial civil que já havia sido expulso da corporação após ser condenado por um sequestro e extorsão em 2008. Capturado em um sítio na cidade de Cardoso, no interior do estado, Itamar era o responsável por fazer a ponte e negociar os valores com as lideranças das quadrilhas. Foi ele quem aproximou o então chefe dos investigadores da Delegacia de Entorpecentes de Campinas, Maurício Aparecido de Oliveira, de José Ricardo Ramos, outro tesoureiro da facção envolvido no plano de morte contra o promotor. Imagens de vídeo encontradas no celular do próprio criminoso registram reuniões clandestinas entre o policial e o bandido apenas uma semana antes de o plano de homicídio ser desmantelado.
O promotor Marcos Tadeu Rioli, responsável por coordenar a ação que efetuou três prisões temporárias e dez mandados de busca, afirmou que a prioridade absoluta das corporações é arrancar essas “laranjas podres” de dentro das forças de segurança. Rioli destacou o trabalho integrado entre o Ministério Público e as corregedorias das Polícias Civil e Penal para afastar os maus profissionais e garantir que o serviço público seja transparente.
Enquanto a defesa do ex-investigador Maurício de Oliveira critica o que chama de “excesso de prisões temporárias desnecessárias” por parte da Justiça e alega aguardar o acesso completo aos autos, os advogados do ex-estagiário Gabriel Jesus divulgaram uma nota pedindo cautela. A defesa do jovem reforçou que qualquer julgamento neste momento inicial é precipitado e garantiu estar trabalhando para esclarecer os fatos em juízo, resguardando o direito à presunção de inocência de seu cliente. Os materiais coletados nos endereços dos suspeitos agora serão periciados pelo Gaeco para determinar se o grupo agia estritamente por ganância financeira ou se atuava diretamente como um braço logístico da facção no interior de São Paulo.








