segunda, 6 de julho de 2026

Jogo virtual interativo desenvolvido na USP ajuda a tornar o diagnóstico de autismo mais preciso

O processo atual para diagnosticar o Transtorno do Espectro Autista (TEA) depende essencialmente de avaliações comportamentais, que envolvem a observação direta do paciente, entrevistas detalhadas com os familiares e a aplicação de testes neuropsicológicos. Embora consagrado, esse modelo clínico pode carregar uma dose de subjetividade, o que move especialistas a buscarem novas ferramentas tecnológicas capazes de fornecer dados mais exatos, objetivos e mensuráveis para apoiar os médicos.

Diante desse desafio, uma pesquisa realizada na Escola de Educação Física e Esportes (EEFE) da USP testou com sucesso um jogo interativo que capta os movimentos do corpo para analisar padrões motores de pessoas com autismo. O estudo, conduzido pela pesquisadora Fernanda Orosco Guilherme sob a orientação do professor Jorge Alberto de Oliveira, descobriu que a tecnologia é altamente eficaz para identificar sutilezas motoras. O dado mais marcante do experimento foi o tempo de reação: os participantes com TEA mostraram respostas significativamente mais lentas em todas as etapas da atividade quando comparados ao grupo de pessoas neurotípicas (com desenvolvimento considerado padrão).

A pesquisa utilizou o conceito de “jogos sérios” — termos usados para definir simuladores e ambientes virtuais desenvolvidos com propósitos educativos, de treinamento ou reabilitação, indo muito além do simples entretenimento. No experimento, feito em parceria com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Tatuí, no interior de São Paulo, os cientistas reuniram 38 pessoas diagnosticadas com autismo e outras 38 pessoas neurotípicas, com idades entre 5 e 25 anos. Todos passaram por uma sessão no jogo Bubbles, uma plataforma digital onde o usuário precisa movimentar os braços para estourar bolhas virtuais que surgem aleatoriamente na tela do computador, mudando de tamanho, direção e velocidade.

Enquanto os participantes tentavam interceptar os alvos, uma câmera gravava as ações em tempo real, calculando a distância percorrida pelas mãos, a taxa de acertos e a agilidade física. Além de registrar que o grupo com autismo levou mais tempo para reagir, o sistema computadorizado apontou que eles tiveram uma menor precisão nos movimentos e trajetórias menos eficientes com os braços até alcançar as bolhas. A capacidade do software de coletar e cruzar esses múltiplos dados físicos prova que a realidade virtual consegue capturar nuances do corpo que passariam despercebidas aos olhos humanos em uma consulta tradicional.

De acordo com os autores do estudo, a tecnologia surge como uma grande promessa para modernizar as clínicas de saúde, funcionando como um exame complementar atraente e lúdico para os pacientes. A pesquisadora Fernanda Guilherme destaca que o método é de baixo custo e pode ser adaptado também para acompanhar a evolução dos pacientes ao longo dos tratamentos e terapias cotidianas. O jogo Bubbles está disponível de graça na internet por meio da plataforma Open Heal, que reúne ferramentas digitais voltadas para apoiar o diagnóstico e a reabilitação de diversas condições de saúde e deficiências.

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