

A devolução de um animal silvestre ao seu habitat natural exige muito mais do que simplesmente abrir uma gaiola. Prova disso é a história de uma jovem jaguatirica que, após passar meses em tratamento, retornou totalmente saudável à Mata Atlântica no dia 24 de junho. O felino havia sido resgatado em condições debilitadas em uma área rural do município de Miracatu, no interior paulista, e precisou de cuidados intensivos para reaprender a sobreviver sozinho na floresta.

O resgate aconteceu depois que moradores da região notaram que o animal rondava frequentemente as propriedades rurais, aproximando-se de galinheiros em busca de comida de forma desesperada. Diante do risco, a Polícia Militar Ambiental foi acionada e levou a jaguatirica para o Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de Registro (Cetras-Registro). Ao chegar à unidade, os veterinários constataram que ela estava muito magra e com ferimentos na cabeça, pescoço e patas. Os exames laboratoriais revelaram um diagnóstico surpreendente para uma espécie nativa: sarna, uma doença de pele comum em animais domésticos.
A recuperação exigiu paciência e dedicação de toda a equipe técnica. Foram meses de isolamento e cuidados constantes até que o felino estivesse livre do parasita e com o peso ideal. Com a saúde restabelecida, a jaguatirica foi solta na Reserva Legado das Águas, uma grande área protegida que funciona como um corredor ecológico na Mata Atlântica. O local foi escolhido estrategicamente por oferecer bastante abrigo e alimento, permitindo que o animal viva em total liberdade sem o risco de transmitir doenças para outras populações de felinos. Como a espécie é considerada vulnerável à extinção em São Paulo, salvar cada indivíduo é uma vitória para a biodiversidade.


O caso dessa jaguatirica acende um alerta importante sobre o avanço humano sobre as florestas. Com a destruição e a divisão de seus ambientes naturais, os bichos acabam invadindo sítios e cidades para não morrer de fome. Nessas situações, eles ficam expostos a atropelamentos, ataques e, principalmente, a doenças transmitidas por cães e gatos, como a sarna que atingiu o felino. Especialistas orientam que, ao avistar um animal silvestre, as pessoas nunca tentem alimentá-lo ou capturá-lo, sendo fundamental ligar imediatamente para as autoridades ambientais.
A soltura da jaguatirica coroa uma série de casos de sucesso do Cetras-Registro, que desde sua abertura, em agosto de 2024, já acolheu quase 1,9 mil animais. Recentemente, o centro também devolveu à natureza um filhote de gato-do-mato que havia se separado da mãe e uma preguiça que precisou amputar parte das garras após ser atropelada. Atualmente, cerca de 62% dos animais que passam pelo processo completo de reabilitação na unidade conseguem retornar com sucesso à vida livre, ajudando a manter o equilíbrio dos ecossistemas paulistas.







