quarta, 10 de junho de 2026

Invisíveis e alvos de ódio: estudo revela que Brasil registra 120 agressões diárias contra pessoas em situação de rua

Em abril deste ano, as redes sociais foram tomadas por imagens chocantes de estudantes universitários em Belém (PA) atacando um homem negro com descargas elétricas enquanto ele caminhava de costas. A vítima vive nas ruas há seis anos e, embora o seu caso tenha ganhado repercussão nacional, a realidade que ele enfrenta faz parte de uma rotina de terror vivida por milhares de brasileiros. Entre 2014 e 2023, o país contabilizou oficialmente 150 mil episódios de violência contra a população em situação de rua. No entanto, esse número alarmante esconde uma realidade ainda pior: o medo e as barreiras burocráticas fazem com que a maioria desses crimes sequer chegue ao conhecimento das autoridades.

Os dados constam no estudo inédito “A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua”, realizado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/POLOS-UFMG). Segundo a pesquisa, 70% das vítimas nunca procuram ajuda após sofrerem uma agressão, o que gera uma subnotificação crônica. O coordenador do estudo, professor André Luiz Freitas Dias, esclarece que a desconfiança nas instituições, o receio de sofrer preconceito no atendimento e a dificuldade de acesso aos serviços públicos fazem com que os dados oficiais mostrem apenas a “ponta do iceberg”.

Apesar do silêncio de muitas vítimas, o sistema de saúde brasileiro recebe todos os dias ao menos 120 notificações de violência grave contra quem mora na rua. Em 75% dessas situações, os ferimentos são tão sérios que exigem atendimento médico urgente, e 12% dos casos terminam em mortes ou traumas físicos permanentes. O pesquisador alerta para um ciclo cruel: os vulneráveis sofrem agressões repetidas vezes, vão ao hospital em estado de emergência e, após receberem alta, voltam para as mesmas calçadas e condições de risco, evidenciando a falta de moradia, emprego e políticas de acolhimento. Em São Paulo, o presidente do movimento estadual que defende essa população, Robson César Correia de Mendonça, denuncia que as agressões são diárias e partem, inclusive, de agentes públicos durante ações de limpeza urbana, por meio de jatos de água e da retirada forçada de pertences e materiais de trabalho.

O perfil de quem mais sofre no ambiente urbano tem cor e idade bem definidas: os jovens e negros são os alvos principais. Cruzando dados do sistema do Ministério da Saúde com as denúncias do Disque 100, a pesquisa identificou que pretos e pardos representam 78% das vítimas, enquanto pessoas entre 15 e 49 anos concentram 82% das agressões. O estudo detalha ainda que, embora os homens sejam a maioria dos afetados, a letalidade das agressões é muito maior quando as vítimas são mulheres ou pessoas trans. O racismo estrutural e o preconceito social contra a pobreza extrema alimentam esses ataques.

Entre os tipos de violência catalogados, a agressão física lidera com folga, estando presente em 65% das notificações. Logo em seguida aparecem a violência psicológica, o abandono, a negligência (como a omissão de socorro e recusa de atendimento) e os crimes sexuais. A maior parte dos ataques (70%) acontece em praças e vias públicas, mas os pesquisadores acendem o alerta para o fato de que a violência também ocorre dentro de abrigos e casas de acolhimento institucionais, locais que deveriam servir de proteção.

Diferente do que ocorre com a população geral, onde a maior parte dos crimes acontece no ambiente familiar, quem está na rua é atacado majoritariamente por desconhecidos. O coordenador do estudo explica que isso aponta para uma prática de aporofobia — termo usado para definir a aversão, rejeição e o ódio voltados contra pessoas pobres. Além disso, a violência deu um salto preocupante na última década: os registros no Disque 100 saltaram de 12,5 mil em 2020 para 45,8 mil em 2023, com uma forte “aceleração crítica” em estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro, além de avançar rumo às cidades do interior do país.

Para interromper essa escalada, os especialistas defendem que o problema não deve ser tratado apenas como um caso de polícia ou repressão. O estudo propõe a criação de sistemas que prevejam territórios de risco, investimentos descentralizados em cidades menores e políticas firmes de moradia e educação. Questionado sobre as medidas adotadas pelo Governo Federal, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania informou que monitora a situação e que lançou, em março deste ano, o programa Cidadania PopRua. O projeto busca oferecer atendimento psicossocial, qualificação profissional, reinserção escolar e acolhimento para tentar romper o ciclo de exclusão que castiga milhares de brasileiros que não têm onde morar.

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