

Uma iniciativa que une ciência de dados e a paixão nacional pelo futebol promete mudar a forma como os torcedores acompanham a Copa do Mundo de 2026. Desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o projeto Previsão Esportiva utiliza modelos estatísticos avançados para calcular as chances reais de cada seleção no torneio. A grande novidade para esta edição é que, pela primeira vez desde a criação do projeto em 2010, os cientistas abriram o algoritmo de simulação para o público. No site oficial, qualquer pessoa pode customizar as variáveis, alterar os critérios de cálculo e testar seus próprios cenários para ver como as probabilidades mudam em tempo real.

Os coordenadores enfatizam que a plataforma possui caráter estritamente educativo e informativo, sem qualquer ligação com o mercado de apostas. O projeto funciona como um consórcio de divulgação científica que reúne especialistas de diversas instituições nacionais e estrangeiras, como a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Neoma Business School, na França. Para o torcedor, o portal oferece três ferramentas principais: o painel com as probabilidades de título, um bolão interativo que ajuda a coletar dados para a própria pesquisa e o simulador com o código aberto.
Para traçar o panorama inicial da competição antes de a bola rolar, os supercomputadores do projeto rodaram o torneio completo um milhão de vezes. Os resultados mostram um equilíbrio inédito no topo, apontando que a Copa de 2026 tem seis candidatos reais ao título. A Espanha lidera o favoritismo com 15,9% de chances, seguida de perto pela França, com 14,8%. Logo atrás, completando o pelotão de elite em um empate técnico, aparecem Inglaterra, Portugal, Argentina e o Brasil, que ocupa a quinta posição geral com 8,3% de probabilidade de levantar a taça, despontando como o melhor entre os países não europeus.


No que depender da matemática, a Seleção Brasileira tem um caminho seguro na fase de grupos, avançando de fase em 95% das simulações. O verdadeiro desafio começa no mata-mata. Curiosamente, devido ao cruzamento de chaves desenhado pela Fifa, os dados apontam que terminar a primeira fase em segundo lugar do grupo dá ao Brasil uma chance ligeiramente maior de ser campeão (9,3%) do que liderar a chave (8,5%), pois o caminho teoricamente se tornaria menos tortuoso. O modelo estatístico revelou também que a Holanda é o maior fantasma dos brasileiros: a seleção europeia tem 31% de chances de cruzar o caminho do Brasil logo na fase de 16-avos de final, sendo a equipe que mais elimina o país nas projeções. Por outro lado, caso consiga superar os obstáculos e alcançar a grande final, a probabilidade de o Brasil conquistar o hexacampeonato dispara para 55,6%.
Além de saciar a curiosidade dos torcedores, o projeto funciona como uma poderosa ferramenta pedagógica nas salas de aula brasileiras. De acordo com Francisco Louzada Neto, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP e idealizador da plataforma, o futebol transforma teorias abstratas em um laboratório vivo. No Ensino Médio, os professores conseguem explicar conceitos práticos de probabilidade e eventos raros usando as famosas “zebras” dos gramados. Já no Ensino Superior, a Copa serve de porta de entrada para tópicos complexos de ciência de dados, como simulações de Monte Carlo e inteligência artificial. Os especialistas destacam que os números ajudam a criar um senso crítico na sociedade, ensinando as pessoas a diferenciarem o golpe de sorte de uma estimativa científica fundamentada em dados reais.









