quarta, 15 de julho de 2026

Inclusão digital no Brasil é feita pela metade, mostra pesquisa 

Uma barreira invisível separa duas realidades completamente opostas no coração do Recife Antigo, em Pernambuco. De um lado da Rua do Moinho fica a comunidade do Pilar, uma área de baixa renda habitada majoritariamente por famílias negras e chefiadas por mulheres, onde a renda média não passa de um salário mínimo e meio e o trabalho informal predomina. Do outro lado da mesma via está o Porto Digital, um dos maiores polos de tecnologia do país, que abriga mais de 500 empresas de inovação e faturou R$ 7,4 bilhões em 2025. Essa distância social e tecnológica escancara o desafio da inclusão digital no Brasil, mostrando que estar conectado, muitas vezes, não significa ter acesso real às oportunidades.

Embora o percentual de brasileiros que utilizam a internet tenha ultrapassado os 90% em 2025, a qualidade dessa conexão varia drasticamente conforme a renda. De acordo com dados oficiais do IBGE de 2026, mais de 10% da população depende exclusivamente dos dados de planos móveis de celular para navegar, e quase 60% dos lares no país não possuem computadores ou tablets. Na prática, quem depende dessas franquias limitadas de internet móvel é bloqueado ao esgotar os dados, o que especialistas apontam como uma barreira para o exercício da cidadania, já que serviços essenciais como o Bolsa Família, inscrições em exames nacionais e serviços bancários são feitos majoritariamente de forma virtual. Além disso, entidades de defesa do consumidor argumentam que essa limitação viola o Marco Civil da Internet por ferir a neutralidade da rede, uma regra que proíbe as operadoras de privilegiarem o tráfego de determinados aplicativos em detrimento de outros.

As consequências dessa desigualdade se refletem diretamente na vida dos jovens da comunidade do Pilar. Um projeto social de inclusão oferece bolsas de estudos integrais nas faculdades locais para os moradores, mas a falta de infraestrutura tecnológica em casa impede que os estudantes permaneçam no ensino superior. Sem dinheiro para comprar um computador de qualidade — que custa no mínimo R$ 3,5 mil para cursos da área de tecnologia —, muitos estudantes se veem obrigados a trancar as aulas. É o caso de jovens que tentam cursar graduações de sistemas usando apenas o celular e acabam desistindo pela impossibilidade de programar ou acompanhar o ritmo digital exigido pelas universidades.

Esse cenário de isolamento gera desconforto até mesmo para quem trabalha nos modernos edifícios espelhados do polo tecnológico. Coordenadores de inclusão de grandes institutos de tecnologia que funcionam ao lado da comunidade relatam o incômodo de não verem um único aluno vizinho estudando em suas salas de aula. A própria liderança do Porto Digital reconhece que há uma dívida social e uma desorganização na busca por soluções integradas. Enquanto a inclusão digital de qualidade não chega de forma plena para as famílias periféricas, líderes comunitários alertam para as consequências graves desse isolamento, que acaba limitando o futuro das novas gerações e reduzindo drasticamente as oportunidades de emprego e renda no mercado de trabalho moderno.

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