

Em meio à prática de crimes de diversas naturezas, gangues dos EUA costumam exibir carros caros, grossos cordões de ouro, as melhores roupas de “streetwear” e pouca simpatia quando posam para fotos. Como manda o figurino, uma “facção” do Texas (EUA) adota a ostentação na sua conduta, mas de criminosa não tem nada. Fundada pelo rapper e influenciador Kyle Lee em parceria com o empreendedor Daniel Cotton, o Anti-Bully Gang é um projeto social que brinca com o estilo gângster para promover ações de combate ao bullying em escolas de sua região. A iniciativa compartilha suas ações nas redes sociais e já obteve mais de 5 milhões de espectadores em vídeos virais.

Organizados como uma grande escolta repleta de carros luxuosos, como Ferraris, acompanhados de uma van preta com o letreiro “Anti-Bully Gang”, voluntários do projeto vão até a saída de escolas no Texas para presentearem estudantes vítimas de bullying com uma volta para casa segura e em grande estilo. Ao chegar na porta dos colégios, os integrantes da Gang conversam com os alunos sobre os malefícios do bullying e incentivam a descontinuidade da prática. Em algumas abordagens, chegaram a conseguir conversar com crianças e adolescentes autoras das infrações.
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O bullying consiste na prática individual ou coletiva de atos repetidos de violência física, verbal ou psicológica contra pessoas que convivem em um mesmo ambiente em que o abusador. Uma pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA apontou que, de 2021 a 2023, 34% dos estudantes com idades entre 12 e 17 anos sofreram bullying nas escolas. Já um levantamento da organização internacional Bullying Sem Fronteiras, que combate violências do gênero, apontou que os EUA são o segundo país com mais casos confirmados da prática, chegando a 340 mil atingidos. A marca só é superada pela Espanha.
Na última sexta-feira, a iniciativa foi até a Kealing Middle School, em Austin (Texas, EUA), para buscar Josani Smith, uma estudante autista de 11 anos, que denunciou aos pais que estava sendo atacada ao sair das aulas. Quando o grupo chegou ao local, Kylie procurou o diretor da escola, Timoth Estes, para conversar sobre o caso. Ele também falou com policiais que atuam na segurança da entrada do espaço e pediu para que sejam vigilantes contra casos de bullying.
Um dia com a Anti-Bully Gang
“O diretor nos agradeceu por ajudar Josani a enfrentar essa situação. Ele também convidou a Anti-Bully Gang para voltar e conversar com toda a escola sobre o bullying”, contou Kylie, em um vídeo postado nas redes sociais sobre a ação com a menina, que soma mais de 260 mil visualizações.
Quando Josani deixou o prédio, os membros da “gangue” já esperavam por ela. Ao ver a menina “escoltada” por membros do projeto, um dos meninos que costumava “zoar” a estudante na saída do colégio foi avistado. Ele se intimidou e correu na direção contrária em que o grupo se encontrava.
A fim de garantir a segurança da menina nos dias seguintes, Kylie apresentou a pré-adolescente a um dos policiais que atuam na vigilância do campus. O rapper orientou a menina a denunciar ao agente possíveis novas tentativas de abuso ou agressões consumadas.
Após deixar a escola, a carreata seguiu para uma sorveteria, onde Josani pode escolher o sorvete que quisesse na conta da Anti-Bully. Enquanto comiam, os integrantes deram palavras de incentivo à autoestima da estudante, falando para ela sobre a importância de ser autoconfiante e acreditar no seu potencial. Todas as ações contam com um passeio como esse com as vítimas, em que recebem presentes e são acolhidas pelo grupo.
“Eu quero que você saiba que nós estamos com você e nós nos importamos com tudo com o que você tem lidado. Nós viemos buscá-la hoje para mostrar que você não está sozinha”, disse Kylie a Josani, que afirmou ter se sentido melhor e mais segura depois da visita do grupo.
A mãe da menina, Symphie Smith, agradeceu ao grupo por ter acolhido a sua filha. “Agradeço muito a vocês por terem vindo”, ela comentou na publicação do grupo no Facebook sobre o dia que passaram com Josani.
Por dentro do projeto
A Anti-Bully Gang foi fundada em 2020 com o propósito de combater todas as formas de bullying contra crianças e adolescentes. O projeto criado por Kylie e Daniel tem foco no âmbito escolar foi pensado como uma forma de evitar que meninos e meninas passem pelas mesmas dores que eles. “Nossos fundadores experienciaram em primeira mão os efeitos devastadores do bullying e prometeram fazer a diferença, capacitando pessoas a se posicionarem contra essa prática”, afirma o site do grupo.
A equipe do projeto é diversificada. Líderes comunitários, profissionais da saúde mental, influenciadores digitais e demais voluntários integram a Anti-Bully. Eles se dividem para desempenhar serviços de suporte direto, como o oferecido a Josani, oficinas educacionais e ações voltadas para orientar juridicamente vítimas de bullying e pressionar autoridades a fim de garantir leis e diretrizes mais rígidas contra as agressões. O grupo busca legisladores e governantes para abordar o assunto.
Como um bom gângster não revela seus segredos, a parte mais curiosa do projeto, o estilo de gangue, não é explicada nos seus conteúdos, mas é possível especular que a “marra” aparente seja para encorajar os pequenos defendidos pelo grupo a serem “valentes”.
Além de ações voltadas para a prevenção da violência e de amparo para vítimas, o grupo também denuncia, por meio de suas redes sociais, profissionais de escolas que são negligentes ou convenientes perante práticas de bullying. Em um dos vídeos mais virais do movimento, que alcançou mais de 2 milhões de visualizações no TikTok, Kylie exibe imagens de um diretor-assistente da Katherine Stinson Middle School, localizada em San Antonio (Texas, EUA) rindo enquanto vê um aluno, que sofria ataques constantes, sendo agredido por outro estudante.
Há ainda publicações que denunciam o quão grave podem ser as consequências das agressões. Nas redes da organização, Kylie exibiu alguns casos em que a vítima sofreu fraturas graves ou chegou à morte após ter sofrido violência física na escola. Também tem publicações alertando que algumas das crianças e adolescentes atacados chegaram a tirar a própria vida.







