segunda, 15 de junho de 2026

Fernandópolis era ponto estratégico no interior paulista para esquema entre PCC e máfia italiana

Uma investigação detalhada da Polícia Federal revelou que o município de Fernandópolis, no interior do estado de São Paulo, desempenhou um papel estratégico fundamental na engrenagem logística de um poderoso consórcio do crime organizado. A organização criminosa unia a facção brasileira Primeiro Comando da Capital (PCC) à ‘Ndrangheta, a temida máfia italiana que estende seus tentáculos por mais de 40 países. O grupo é acusado de montar uma complexa rede multimodal para enviar toneladas de cocaína do Brasil para o continente europeu por via marítima.

A descoberta de que o interior paulista servia de base para o crime internacional veio à tona com a deflagração da Operação Narco Sky. De acordo com os relatórios da Polícia Federal, os criminosos utilizavam aviões para transportar a droga de suas regiões produtoras até pontos de concentração e distribuição localizados em Fernandópolis. A partir da cidade, o entorpecente seguia para entrepostos no litoral, de onde era preparado para ser despachado em navios de grande porte a partir do Porto de Santos e de outras frentes marítimas nacionais e internacionais.

A operação policial, que resultou na decretação da prisão preventiva de dez homens, conseguiu rastrear e decifrar sete grandes eventos de narcotráfico internacional ocorridos ao longo do ano de 2020. A capacidade de ramificação da quadrilha impressionou as autoridades, que identificaram Fernandópolis no mapa das ações criminosas ao lado de locais de grande movimentação portuária mundial, como o Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, o Porto de Las Palmas, na Espanha, o Porto de Ancona, na Itália, e a Praia de Borssele, na Holanda.

Para conseguir mapear os passos do bando e comprovar a relevância de Fernandópolis na rota da droga, a Polícia Federal contou com a cooperação jurídica internacional de autoridades francesas, que compartilharam dados obtidos através da perícia em servidores do aplicativo Sky ECC. Essa plataforma de comunicação possuía um sofisticado sistema de mensagens criptografadas que os traficantes utilizavam acreditando ser impossível de rastrear. Foi por meio dessas conversas que a PF descobriu o comando exercido pelo guarujaense Marco Aurélio de Souza, conhecido como “Lelinho”, que gerenciava toda a recepção e o transporte da droga em solo brasileiro, mantendo contato direto com grandes investidores europeus, como o sérvio Antun Mrdeza e o espanhol Alejandro Salgado Vega, ambos integrantes da máfia italiana e atualmente foragidos internacionais.

O juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, ao validar o pedido de prisão dos investigados, ressaltou a altíssima periculosidade e a envergadura técnica do grupo, que chegou a movimentar mais de 2,3 toneladas de cocaína para a Europa em um curto período. O magistrado destacou que a estrutura era perfeitamente dividida entre um núcleo financeiro no exterior, uma coordenação logística nacional — que utilizava o interior paulista como porto seguro para o armazenamento inicial — e células operacionais responsáveis por corromper tripulantes e usar mergulhadores para esconder a droga nos cascos dos navios.

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