

Um pesquisador brasileiro da Stanford University, nos Estados Unidos, está utilizando sua experiência acadêmica internacional para entender por que muitos jovens da rede pública de São Paulo sonham com a faculdade, mas encontram dificuldades para chegar até ela. Gabriel Marcondes Koraicho, doutorando na Escola de Educação de Stanford, desenvolve um estudo em parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) para investigar as barreiras de acesso ao ensino superior e a distância entre o desejo dos estudantes e a participação efetiva em exames como o Enem e o Provão Paulista Seriado.

Após reunir mais de 200 mil respostas de alunos paulistas, os primeiros achados da pesquisa trouxeram dados surpreendentes. Mais de 80% dos entrevistados afirmaram, tanto no início quanto no final do ano letivo, que têm forte interesse em ingressar no ensino superior nos dois anos seguintes à conclusão da escola. No entanto, o estudo identificou um descompasso entre a intenção e a prática. Na primeira etapa do levantamento, embora a maioria manifestasse o sonho de fazer faculdade, apenas 47,5% compareceram aos dois dias do Enem. Para Koraicho, essa lacuna mostra que, apesar de existir o interesse, os estudantes muitas vezes não tomam as ações necessárias no processo, possivelmente por falta de alguém que os guie de perto, tornando o apoio da escola e dos familiares indispensável.
A pesquisa também revelou que o Provão Paulista Seriado tem sido muito mais eficiente que o Enem em garantir a participação dos estudantes, registrando uma presença cerca de 20 pontos percentuais maior. De acordo com o pesquisador, o segredo do sucesso do Provão está no fato de o exame acontecer diretamente na sala de aula, durante os dias de semana e no período regular de aula, o que reduz drasticamente as barreiras logísticas e aproxima a prova do cotidiano do aluno. Além disso, o estudo chamou a atenção para a realidade socioeconômica desses jovens: a grande maioria planeja conciliar trabalho e estudo logo após o Ensino Médio, o que exige que as universidades e as políticas públicas deixem de lado uma visão elitizada de que o estudante se dedicará exclusivamente à vida acadêmica.


Com base nessas evidências, a Seduc-SP já começou a redesenhar suas estratégias de comunicação e apoio para aproximar ainda mais os pais da rotina escolar, utilizando ferramentas tecnológicas já consolidadas. Uma delas é o aplicativo Sala do Futuro, que permite aos responsáveis acompanhar notas e frequência e já foi acessado por 615 mil familiares. Na versão para os estudantes, a plataforma oferece o Prepara SP, um cursinho online gratuito que disponibiliza videoaulas dinâmicas de curta duração, simulados e cards de revisão voltados para o Enem e o Provão Paulista. A ferramenta já alcançou 93% dos alunos do último ano do Ensino Médio e passou a incluir também conteúdos específicos para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A rede estadual conta ainda com o FutureME, uma plataforma opcional de orientação profissional usada nas aulas de projeto de vida para ajudar os jovens a definirem suas carreiras.
Para Gabriel Koraicho, cuja trajetória pessoal foi profundamente marcada pela mobilidade social proporcionada pela educação, a pesquisa é uma forma de devolver oportunidades para a sociedade. Criado por sua mãe e sua avó, ele se formou em economia pela USP, fez mestrado na Fundação Getúlio Vargas e agora expande seu doutorado para analisar como os jovens escolhem o ensino técnico e enxergam o mercado de trabalho. Os dados de seu estudo dão sustentação científica ao impacto do Provão Paulista, que em três edições já abriu mais de 46 mil vagas em instituições renomadas como USP, Unesp, Unicamp, Fatecs e Univesp, provando que colocar a prova nas mãos do aluno e dentro da escola é o caminho mais curto para democratizar o ensino superior.








