

As estratégias para recuperar o aprendizado dos estudantes brasileiros deixaram de ser apenas medidas emergenciais adotadas durante a pandemia e se transformaram em políticas públicas consolidadas. Um diagnóstico inédito realizado pelo Ministério da Educação em parceria com o Instituto Unibanco revelou que quase 83% das ações de estados e municípios para enfrentar a defasagem escolar já possuem respaldo em normas e leis. O levantamento mapeou 151 iniciativas em 24 estados com o objetivo de entender como as redes de ensino estão reorganizando as salas de aula, os currículos e a formação de professores para garantir o direito à educação básica de qualidade.
Apesar do avanço na organização das propostas, a pesquisa acendeu um alerta para a falta de diálogo com quem vive a realidade escolar no dia a dia. Apenas 44% das redes de ensino mantêm canais abertos para ouvir professores e diretores na hora de desenhar as estratégias pedagógicas. Além disso, em mais de dois terços dos casos analisados, os novos documentos de ensino foram criados exclusivamente pelas equipes técnicas centrais das secretarias de educação e apenas apresentados aos docentes para validação, contando com a participação ativa dos professores em apenas 25% das situações. Especialistas apontam que, embora seja normal a coordenação técnica partir dos órgãos centrais, é fundamental criar espaços de troca para que a experiência prática da sala de aula ajude a aperfeiçoar os currículos.
Outro ponto que preocupa os pesquisadores é o formato do material utilizado e a baixa inserção de novas tecnologias. O suporte oferecido aos estudantes ainda é predominantemente tradicional e analógico, baseado no uso de livros didáticos, atividades impressas e apostilas em mais da metade das ações. Ferramentas e plataformas digitais adaptativas são exploradas em somente 20% dos casos. O principal desafio do setor não é necessariamente a falta de computadores, mas sim a capacidade de diversificar as estratégias de ensino para respeitar os ritmos diferentes de aprendizado de cada aluno. A formação contínua também foca mais em diretores e coordenadores, deixando os professores em segundo plano em muitas ocasiões.


Por fim, o relatório trouxe dados preocupantes sobre o bem-estar mental no ambiente escolar. Mais da metade das iniciativas avaliadas não conta com nenhuma ação voltada para a saúde mental dos educadores, e programas de prevenção ao esgotamento profissional extremo, conhecido como burnout, aparecem em apenas 7% das redes. Quando o foco muda para os alunos, as ações de acolhimento psicológico estão em estágio intermediário, priorizando dinâmicas coletivas e rodas de conversa. O diagnóstico indicou que a eficácia desses cuidados enfrenta barreiras cotidianas graves nas escolas, com gestores apontando a violência verbal e o assédio virtual como os maiores problemas de convivência, seguidos por episódios de agressividade e pelo afastamento das famílias da rotina escolar.







