

A possibilidade do desenvolvimento de um forte fenômeno El Niño no segundo semestre deste ano coloca o mercado agrícola global em estado de atenção. Caracterizado pelo aquecimento periódico das águas do Oceano Pacífico devido ao enfraquecimento dos ventos alísios, o fenômeno costuma elevar as temperaturas no planeta e desregular o regime de chuvas. Segundo dados recentes da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há inclusive uma probabilidade de 63% de que o cenário evolua para um evento de extrema intensidade até 2027. Para os produtores, as mudanças climáticas chegam em um momento financeiro delicado, somando-se aos altos custos de diesel e fertilizantes inflacionados por tensões geopolíticas no Oriente Médio.

O setor das chamadas “soft commodities” — produtos agrícolas como cacau, café e açúcar — é um dos mais vulneráveis a essas oscilações térmicas. No caso do cacau, o histórico dos últimos 55 anos mostra que todos os episódios intensos de El Niño provocaram quebra de safra. Na Costa do Marfim e em Gana, que concentram metade da produção mundial, o fenômeno mistura períodos de seca extrema com tempestades fora de época, expondo as plantações a fungos e prejudicando a floração das árvores. Esse desequilíbrio já fez o preço do cacau disparar no mercado internacional, ultrapassando a marca histórica de 12 mil dólares por tonelada e tornando o principal ingrediente do chocolate mais valioso do que muitos metais industriais.
O mercado de café também se prepara para enfrentar instabilidades, principalmente no cultivo do grão tipo robusta. O Vietnã e a Indonésia, responsáveis por metade do abastecimento global dessa variedade, devem registrar forte estiagem e calor acima da média justamente na fase de desenvolvimento dos frutos, reduzindo a produtividade a partir do final do ano. Já para o café arábica, cultivado majoritariamente no Brasil, o impacto inicial pode até ser positivo ao afastar o risco de geadas de inverno no curto prazo. Contudo, analistas alertam que o calor excessivo e a falta de chuvas previstos para o fim do ano no território brasileiro podem comprometer seriamente a safra futura.


O açúcar, por sua vez, viverá cenários opostos entre os maiores produtores do mundo. Na Índia e na Tailândia, o El Niño ameaça cortar o volume das chuvas de monção para os menores níveis em mais de uma década, o que deve encolher a colheita asiática em pelo menos 1 milhão de toneladas. Enquanto isso, o Brasil, que lidera as exportações mundiais do setor, enfrentará um excesso de umidade que pode atrapalhar a colheita atual e reduzir a qualidade do produto no curto prazo. Por outro lado, especialistas apontam que esse mesmo volume de água em solo brasileiro tende a garantir estoques robustos e solo favorável para as plantações que vão abastecer o mercado internacional.









