quarta, 22 de julho de 2026

Duelo entre Inglaterra e Argentina é marcado por protagonismo de Bellingham na luta contra o racismo

As seleções de futebol da Inglaterra e da Argentina entram em campo nesta quarta-feira (15), às 16h, em uma partida que atrai a atenção do planeta por motivos que vão muito além das táticas de jogo. De um lado está o lendário Lionel Messi, que disputa sua última Copa do Mundo pela equipe sul-americana. Do outro, desponta o jovem meio-campista inglês Jude Bellingham, de 23 anos. O atleta, que superou forte desconfiança em seu próprio país para se tornar um dos grandes nomes do futebol mundial, é frequentemente homenageado pela torcida britânica ao som do clássico “Hey Jude”, dos Beatles.

Bellingham, que é negro e construiu sua carreira fora da Inglaterra desde muito jovem, enfrentou uma enxurrada de críticas ao ser convocado, mas respondeu em campo ao se tornar o grande nome da vitória inglesa contra o México por 3 a 1, partida na qual marcou dois gols no Estádio Asteca. Fora das quatro linhas, o jovem se consolidou como uma voz ativa e corajosa contra o preconceito racial. Ele costuma se posicionar publicamente em defesa de colegas que sofrem ataques, como o brasileiro Vinicius Junior, seu companheiro de clube na Espanha. Em contrapartida, Messi tem sido cobrado pela opinião pública por sua postura mais reservada diante de episódios racistas protagonizados por torcedores argentinos durante este mundial, que envolveram ofensas ao influenciador digital IShowSpeed e a torcedores vindos do Egito.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Bellingham revelou que lida com insultos preconceituosos de forma rotineira na internet e que o volume de ataques digitais costuma subir ou descer dependendo de sua atuação em campo. Ele cobrou ações mais firmes de quem comanda o esporte, afirmando que nenhuma profissão deveria expor um trabalhador a esse tipo de violência. O diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho, ressalta que o apoio de parte do público a atletas negros ainda é condicionado ao sucesso deles em campo. Ele aponta que, em derrotas recentes, jogadores de países como Holanda e a própria Inglaterra foram imediatamente hostilizados por torcedores. Carvalho explica ainda que a postura firme de Jude faz com que críticos tentem rotulá-lo como “arrogante”, uma reação comum da sociedade quando homens negros decidem questionar o preconceito em vez de se calarem.

O problema do racismo tem sido um dos temas mais debatidos e preocupantes desta edição da Copa do Mundo, atingindo também atletas de seleções como Alemanha e França, a exemplo do astro Kylian Mbappé. Os dados oficiais da Fifa dão a dimensão do desafio: apenas na fase de grupos, o sistema de monitoramento da entidade localizou e baniu 89 mil postagens ofensivas nas redes sociais, o que representa um salto de 13 vezes em comparação com o torneio de 2022. Desse total de mensagens violentas, cerca de 11% continham teor estritamente racista. Entidades como a organização inglesa Kick it Out defendem que, embora a tecnologia de monitoramento da Fifa seja um passo importante, é necessário criar punições mais severas para dar segurança às vítimas na hora de denunciar.

Para tentar mudar essa realidade, muitos apontam para o exemplo que vem do futebol inglês. Desde 2021, a Premier League mantém um plano estruturado de combate à discriminação que envolve clubes, torcedores, escolas e forças policiais. A liga inglesa promove treinamentos para árbitros, campanhas de conscientização nos estádios e canais diretos para denúncias de preconceito racial e de homofobia, além de rastrear e cobrar a punição legal de torcedores que cometem crimes virtuais. Especialistas apontam que essa postura institucional mais firme cria um ambiente mais seguro para que atletas como Bellingham consigam usar sua influência para cobrar transformações e combater a impunidade no esporte mais popular do planeta.

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