quarta, 5 de agosto de 2026

Dor crônica invisível pode mascarar diagnósticos de depressão resistente, alerta estudo

Pessoas diagnosticadas com depressão resistente a medicamentos podem, na verdade, estar enfrentando as consequências de dores crônicas que nunca foram avaliadas adequadamente. Essa é a reflexão trazida por especialistas internacionais em um artigo publicado na revista Nature Mental Health. Os pesquisadores apontam que a dor constante é muito frequente entre quem sofre de depressão e prejudica a resposta aos antidepressivos, mas raramente entra na conta no momento em que os médicos definem a estratégia de tratamento.

O estudo ressalta que as escalas e questionários padronizados usados na rotina clínica, como o PHQ-9 e a escala de Hamilton, se concentram nos sintomas mentais e não medem o impacto da dor no dia a dia do paciente. Um dos autores do trabalho, Nilson Mendes Neto, pesquisador da Harvard Medical School, esclarece que o objetivo não é orientar o abandono de medicações, mas sim aperfeiçoar a investigação médica. Segundo ele, quando um antidepressivo não funciona na dose e no tempo adequados, a prática comum é considerar o problema refratário ao remédio, sem antes checar se há um quadro doloroso por trás alimentando a persistência do sofrimento.

Essa falha na medição padronizada afeta diretamente a precisão dos tratamentos. Os autores ponderam que a dor crônica não explica todos os casos em que os medicamentos falham, mas enfatizam que é impossível saber a dimensão exata do problema enquanto a dor não for avaliada de forma sistemática. Condições bastante comuns, como fibromialgia, dores na coluna, artrose e dores neuropáticas, acabam sendo acompanhadas de forma isolada do quadro depressivo, mesmo pertencendo ao mesmo paciente.

No caso do Brasil e do Sistema Único de Saúde (SUS), os pesquisadores enxergam uma oportunidade de avanço que não exige grandes investimentos financeiros ou tecnologias caras. A proposta é integrar a investigação da dor no atendimento primário e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Rastrear e registrar desconfortos físicos contínuos antes de indicar tratamentos mais complexos e dispendiosos pode garantir que o paciente receba o cuidado correto para a causa real do seu mal-estar, tornando o sistema público mais preciso e eficiente.

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