

A rejeição à participação das mulheres na política brasileira atravessa gerações e ganha novos contornos na atualidade. Em 1891, durante os debates da primeira Constituição da República, parlamentares como o senador Coelho e Campos e o deputado Serzedelo Corrêa usavam a tribuna para afastar a população feminina das urnas, alegando que a política retiraria a “santidade” da mulher. Passados 135 anos, manifestações recentes — como as declarações do influenciador Paulo Figueiredo questionando a qualidade do voto feminino — mostram que a lógica patriarcal continua presente na sociedade.

Para historiadoras, cientistas políticas e juristas ouvidas pela Agência Brasil, a reiteração desses discursos atua como uma reação conservadora, conhecida no meio acadêmico como backlash, que surge a cada avanço dos direitos das mulheres. A professora de direito Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), ressalta que o voto não foi uma concessão voluntária do Estado, mas o resultado de uma luta contínua. Segundo a especialista, qualquer questionamento ao sufrágio feminino fere o Artigo 14 da Constituição de 1988, que garante o direito de voto a todos sem distinção de sexo, e o Artigo 5º, que proíbe discriminações, podendo caracterizar conduta ilícita.
Historicamente, o movimento pelo direito ao voto exigiu estratégias organizadas e resistência. Líderes como Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino em 1910, e a bióloga e advogada Bertha Lutz enfrentaram forte oposição e ridicularização na imprensa de sua época. O acesso pleno ao voto só foi regulamentado no país com o Código Eleitoral de 1932 e assegurado na Carta Magna de 1934. Mais tarde, o Código Eleitoral de 1946 tornou o voto obrigatório para as mulheres alfabetizadas, requisito que foi extinto definitivamente com a Constituição Cidadã de 1988.


Atualmente, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que as mulheres compõem a maioria do eleitorado brasileiro em 2026, representando mais de 83,8 milhões de pessoas aptas a votar, além de apresentarem índices de escolaridade formal superiores aos dos homens. Apesar de serem a maioria da população e do eleitorado, as pesquisadoras apontam que a sub-representação nos cargos públicos e a sobrecarga com tarefas de cuidado ainda limitam a atuação feminina na política. Para estudiosas como Ana Prestes e Cibele Tenório, o resgate da memória das sufragistas e o fortalecimento da educação são ferramentas indispensáveis para defender os direitos conquistados e incentivar a presença das mulheres nos espaços de decisão.









