terça, 7 de abril de 2026

De revoada a sucesso sertanejo: a história da música que imortalizou Rio Preto como a “cidade das andorinhas”

Neste 19 de março, São José do Rio Preto comemora 174 anos de história, e entre as memórias que compõem a identidade do município, uma melodia se destaca por ter transformado um fenômeno natural em patrimônio cultural brasileiro. A música “As Andorinhas”, imortalizada pelo Trio Parada Dura, teve seus primeiros versos escritos em um hotel no centro da cidade, inspirada pelo balé aéreo de milhares de aves que, durante décadas, escolheram as praças rio-pretenses como dormitório. O compositor Alcino Alves recorda que, em 1985, durante uma parada estratégica em uma viagem entre o Paraná e Minas Gerais, ficou fascinado ao ver as aves formando um imenso funil no céu ao entardecer, o que o levou a registrar as frases que se tornariam o refrão de um dos maiores clássicos do gênero sertanejo.

A relação de Rio Preto com essas aves migratórias vindas do Hemisfério Norte é profunda e marcada por contrastes. Se por um lado o espetáculo visual atraía multidões e conferiu à localidade o apelido de “cidade das andorinhas”, por outro, a concentração massiva dos animais trazia desafios urbanos. Historiadores lembram que as praças Rui Barbosa e Dom José Marcondes ficavam cobertas de sujeira, gerando reclamações de comerciantes e frequentadores do antigo Cine Rio Preto. O impasse só foi resolvido anos depois, quando o biólogo Luiz Dino Vizotto descobriu que uma iluminação específica nas árvores era capaz de afastar as aves de forma inofensiva, encerrando o ciclo das revoadas no Centro, mas mantendo viva a mística que envolve o nome da cidade.

Além da música, a figura da andorinha voou para outras áreas da cultura local, servindo de inspiração para o “Homem-Andorinha”, um super-herói genuinamente rio-pretense. Criado pelo jornalista Vicente Serroni em parceria com o artista plástico Miguelavo, o personagem protagonizou revistas em quadrinhos artesanais que circulavam em um bar temático da cidade no início dos anos 2000. Nas histórias, o herói ajudava a resolver problemas cotidianos apontados pela própria população, unindo o folclore urbano ao desejo de melhorias para a comunidade. Essa iniciativa artística reforçou o papel de Rio Preto como um celeiro de criatividade e um polo histórico da cultura sertaneja, onde residiram grandes nomes da música nacional.

Hoje, embora as nuvens de pássaros não escureçam mais o céu das praças centrais, o legado dessa época permanece presente no imaginário e na trilha sonora da cidade. A trajetória da canção escrita por Alcino Alves simboliza a vocação acolhedora do município, que serviu de “ninho” para artistas e tradições que se espalharam por todo o país. Ao celebrar mais um aniversário, São José do Rio Preto olha para o futuro sem esquecer os elementos que a tornaram única, desde o antigo presépio da Catedral até o voo poético das aves que, mesmo distantes, continuam voltando através das vozes que cantam sua história.

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