domingo, 5 de julho de 2026

Copa do Mundo pode elevar apostas online em 50% e acende alerta para riscos financeiros e psicológicos

A forte ligação emocional que as pessoas têm com o futebol pode se transformar em um estímulo perigoso para o endividamento durante a Copa do Mundo de 2026. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) emitiu um alerta destacando que eventos de grande mobilização popular ampliam de forma agressiva a exposição do público à publicidade das plataformas de apostas online, conhecidas popularmente como “bets”. De acordo com o órgão, esse cenário afeta não apenas quem já joga com frequência, mas atrai também apostadores casuais e pessoas em situação de vulnerabilidade financeira.

A preocupação das entidades de defesa do consumidor ganhou força após a divulgação de um estudo da multinacional de tecnologia de jogos Softswiss. O levantamento estima que o volume global de dinheiro movimentado em apostas esportivas deve crescer pelo menos 50% nesta Copa do Mundo em comparação com o torneio de 2022, saltando de 35 bilhões de dólares para cerca de 52 bilhões de dólares. Esse salto financeiro é impulsionado pelo novo formato da competição da Fifa, que aumentou de 32 para 48 seleções e passou a ter 104 jogos em vez de 64, gerando muito mais oportunidades de palpites. Especialistas estimam que o mercado brasileiro represente cerca de 10% de todo esse montante global, participação que tende a subir se a Seleção Brasileira avançar no campeonato.

Dados do “Placar das Bets” — uma ferramenta de monitoramento da empresa de análise Klavi baseada no sistema Open Finance — confirmam a tendência de alta no país. Apenas a partir do dia 9 de junho, véspera da abertura da Copa, os brasileiros já injetaram mais de 530 milhões de reais nas plataformas de apostas. Além disso, o gasto médio individual do apostador brasileiro subiu de 188 reais antes do evento para 242 reais nos registros mais recentes. Diante desses números, o Idec defende que as leis brasileiras que legalizaram e regulamentaram as apostas deveriam ser declaradas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal (STF), argumentando que as propagandas massivas estreladas por atletas e influenciadores digitais mascaram os riscos reais do jogo, apresentando a prática como um passatempo simples e lucrativo.

Especialistas em economia comportamental explicam que o desejo de apostar em grandes competições se apoia na chamada “ilusão de controle”, que ocorre quando o torcedor acredita que consegue prever o resultado de um jogo apenas por conhecer bem o seu time de coração, esquecendo-se de que se trata de um jogo de azar. O impacto econômico dessa ilusão já é visível no mercado nacional: um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontou que a inadimplência gerada por gastos com apostas retirou 143 bilhões de reais do comércio varejista tradicional no primeiro trimestre de 2023. Embora o setor de apostas seja uma nova fonte de impostos e patrocine mais da metade dos clubes de futebol no Brasil, economistas alertam que o mercado de apostas não gera bens duráveis e promove apenas uma redistribuição de renda onde os perdedores financiam os ganhadores, exigindo regras mais duras de publicidade, campanhas de educação financeira e o uso de inteligência artificial pelas plataformas para travar o acesso de jogadores compulsivos.

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