

O Colégio Cruzeiro, uma tradicional instituição de ensino da elite do Rio de Janeiro, acionou a Polícia Civil após a descoberta de uma lista de cunho sexual que expunha, constrangia e humilhava diversas estudantes adolescentes. O caso, que foi criado e divulgado em uma plataforma online, acabou extrapolando os muros da escola e ganhou grande repercussão pública. Atualmente, as investigações estão sendo conduzidas pela Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), que informou estar realizando todas as diligências necessárias para apurar os fatos detalhadamente.

Em nota oficial, o Colégio Cruzeiro afirmou que o bem-estar e a segurança de seus alunos são prioridades absolutas e repudiou qualquer atitude de exposição que possa afetá-los. A instituição informou que, assim que soube do ocorrido, registrou um boletim de ocorrência, exigiu e conseguiu a remoção do conteúdo junto à plataforma na internet, alertou os responsáveis e iniciou um apoio integral às alunas afetadas e suas famílias. Com 164 anos de história, a escola reforçou que a conduta ética e a responsabilidade digital são temas recorrentes para os seus cerca de 3 mil alunos, que passam constantemente por campanhas de conscientização e palestras com juízes, delegados, psicólogos e especialistas em tecnologia.
Diante do episódio, especialistas em educação debateram o papel das escolas e das famílias quando os próprios adolescentes cometem esse tipo de agressão e violência. Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, ressaltou que uma situação como essa possui muitas camadas que exigem um trabalho de prevenção contínuo e sistematizado. Para ela, a escola deve enxergar esses conflitos e violências como oportunidades pedagógicas para ensinar os jovens a viver em sociedade. Ela recomenda que a intervenção comece colocando a vítima em primeiro lugar, por meio de uma escuta cuidadosa que deixe claro que a jovem não tem culpa e que será protegida de novas exposições, evitando que a conversa pareça um interrogatório. Em relação aos autores, a professora sugere conversas individuais — já que muitas infrações acontecem pela pressão do comportamento em grupo — e a busca por formas de restauração, fazendo com que eles compreendam a real gravidade do que fizeram.


Por sua vez, Denise Carreira, professora da Faculdade de Educação da USP, lembrou que, além do papel pedagógico, a legislação brasileira, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), determina que a escola deve identificar o problema, acolher as vítimas e acionar o Conselho Tutelar e a rede de proteção, já que adolescentes também respondem por atos infracionais. A especialista também destacou a urgência de as escolas discutirem abertamente as assimetrias de gênero e a chamada masculinidade tóxica ou hegemônica, que está ancorada em ideias de dominação e desqualificação do feminino. Segundo Denise, que já propôs políticas nacionais de igualdade de gênero, debater esses temas em rodas de conversa e projetos é fundamental inclusive para combater o feminicídio e a violência contra mulheres e a população LGBTQIA+. Ela lembrou, inclusive, que a Lei Maria da Penha prevê esse debate nas salas de aula para evitar que o silenciamento continue prejudicando a vida de meninas e dos próprios meninos, que também sofrem quando não se encaixam nesses padrões de comportamento.







