domingo, 12 de julho de 2026

Cientistas da USP criam modelo inédito com 11 mil exames para desvendar mistérios da Covid longa

No início da pandemia de Covid-19, a comunidade médica acreditava que a doença era uma infecção essencialmente respiratória. Com o passar do tempo, o vírus mostrou uma face muito mais complexa, agindo de forma sistêmica e afetando o organismo por inteiro. Mesmo após a cura da fase aguda, muitas pessoas continuaram a relatar sintomas persistentes como cansaço crônico, tonturas, dores no corpo, falta de ar, refluxo, formigamentos e queda de cabelo. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha reconhecido oficialmente a existência da chamada “Covid longa”, a rotina dos pacientes seguiu desafiadora, marcada por uma peregrinação exaustiva por consultórios de diferentes especialidades que raramente conversavam entre si.

Para mudar essa realidade, um grupo de cientistas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) transformou o jeito tradicional de fazer ciência. Eles desenvolveram um modelo de atendimento interdisciplinar inédito para avaliar o paciente de forma integral. A equipe conseguiu unir 22 grupos de pesquisa de 15 áreas médicas diferentes para investigar os impactos de longo prazo da doença. O projeto estruturou uma força-tarefa que realizou cerca de 11 mil exames. A metodologia inovadora unificou os protocolos: se duas áreas diferentes precisavam de exames de sangue ou testes de caminhada parecidos, o procedimento era feito uma única vez. A estratégia evitou desperdícios, reduziu a quantidade de sangue retirada e poupou os participantes do desgaste físico e do desconforto.

Os voluntários do projeto fazem parte de um estudo com pessoas que passaram pelo Hospital das Clínicas da USP. Logo nas primeiras avaliações, feitas entre seis e 11 meses após a alta hospitalar, 83% dos pacientes ainda sofriam com pelo menos um sintoma da infecção, o que justificou um acompanhamento prolongado de quatro anos. Na fase mais recente do estudo, os participantes foram avaliados entre 41 e 47 meses após deixarem o hospital, seguindo um fluxo dividido em quatro etapas principais.

O monitoramento começava com uma teleconsulta para coletar o histórico de saúde e analisar os impactos na qualidade de vida e no sono. Depois, o paciente realizava duas visitas presenciais ao hospital. Na primeira tarde, passava por coletas de sangue e urina, eletrocardiograma, exames de função pulmonar e testes físicos. Na segunda visita, realizada pela manhã, passava por procedimentos mais complexos, como tomografias, ecocardiograma, testes de esforço cardiorrespiratório e avaliações psiquiátricas, cognitivas e auditivas. Por fim, uma nova consulta remota era agendada para o feedback, momento em que os médicos explicavam detalhadamente os resultados. Caso alguma sequela grave ou nova alteração fosse descoberta, o voluntário era imediatamente encaminhado para tratamento.

Os pacientes tiveram acesso a um volume de exames de alta tecnologia raramente disponível na rede pública. Os pesquisadores utilizaram, por exemplo, um tomógrafo diferenciado com 320 detectores. Esse equipamento de ponta permite avaliar o fluxo de sangue no pulmão para verificar se o paciente ainda mantinha quadros de tromboembolismo pulmonar ou problemas nas pequenas vias aéreas, complicações frequentes da doença.

As descobertas foram integradas em um banco de dados único e acessível para todos os cientistas envolvidos, permitindo cruzar informações para estudar quatro grandes eixos: a fadiga crônica, a inflamação de todo o corpo, a perda de função dos músculos e a tendência genética de cada indivíduo. Coordenada pelo professor Carlos Roberto Ribeiro Carvalho, a iniciativa reúne mais de 100 profissionais, entre cientistas, estudantes e funcionários administrativos. O projeto conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e apoio da sociedade civil por meio de doações. Os pesquisadores reforçam que o objetivo final é usar esse enorme banco de dados para criar soluções reais e ajudar no desenho de novas políticas públicas de saúde.

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