

Um grupo internacional de cientistas está acendendo a luz vermelha para um perigo silencioso: o avanço de fungos superresistentes a medicamentos. Os pesquisadores defendem que o combate a esses microrganismos precisa ser uma das prioridades do novo Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana da Organização Mundial da Saúde (OMS), previsto para ser lançado ainda este ano para atualizar as diretrizes vigentes desde 2015.

O alerta ganhou força com a publicação de um artigo na renomada revista Nature Medicine, que conta com a assinatura de três cientistas brasileiros. De acordo com os autores, a resistência aos remédios antifúngicos está se espalhando rapidamente, o que inutiliza os tratamentos tradicionais e aumenta o número de mortes por infecções graves. Diante desse cenário preocupante, o médico infectologista Arnaldo Lopes Colombo, professor da Unifesp e um dos líderes do estudo, reforça a necessidade de criar imediatamente uma força-tarefa que reúna especialistas em fungos, autoridades de saúde pública, veterinários e defensores do meio ambiente para desenhar estratégias conjuntas.
A resistência a medicamentos acontece quando esses seres vivos sofrem mutações e deixam de responder aos remédios disponíveis no mercado. Embora o foco da ciência e das indústrias farmacêuticas historicamente tenha sido combater as superbactérias, os fungos mutantes representam uma ameaça tão grande quanto. Eles atacam principalmente pessoas com o sistema imunológico fragilizado, idosos, crianças e pacientes internados em UTIs — como ficou evidente na pandemia de Covid-19, quando as infecções por fungos agravaram o quadro de muitas pessoas. Eventualmente, até jovens saudáveis podem ser contaminados por esses agentes presentes na comunidade.


Criar novos remédios contra fungos é um desafio biológico imenso. Ao contrário das bactérias, as células dos fungos são muito parecidas com as células humanas em sua estrutura interna. Por causa dessa semelhança, os cientistas têm muita dificuldade em desenvolver um medicamento que destrua o fungo sem ser tóxico ou causar efeitos colaterais graves no corpo do próprio paciente.
Para piorar a situação, o problema não nasce apenas dentro dos hospitais. Os especialistas explicam que o uso exagerado e sem controle de fungicidas na agricultura e na medicina veterinária acelera a criação de superhongos. Como os produtos usados nas lavouras têm fórmulas químicas parecidas com as dos remédios de farmácia, os fungos que sobrevivem no campo já entram em contato com os humanos totalmente blindados contra os tratamentos médicos. É por isso que os cientistas defendem o conceito de “Saúde Única”, uma abordagem que entende que a saúde humana, a dos animais e a do meio ambiente estão conectadas.
Para tentar conter essa ameaça, o grupo de pesquisadores enviou propostas à OMS divididas em cinco frentes principais. Eles pedem mais dinheiro para monitorar o avanço desses microrganismos, a criação de testes de diagnóstico mais rápidos e baratos e o acesso justo aos remédios para países mais pobres. Além disso, a meta defendida pelos cientistas é fazer com que pelo menos metade dos grandes hospitais do mundo seja capaz de identificar se um fungo é resistente, além de criar regras rígidas para conter a transmissão dessas infecções em ambientes médicos e fiscalizar o uso desses produtos no campo.








