

Mesmo com o avanço tecnológico que trouxe o Pix e a facilidade dos cartões de crédito, uma prática antiga continua sendo a tábua de salvação para muitos moradores de Fernandópolis: a caderneta de fiado. Em bairros como o Jardim Paraíso e o Jardim Araguaia, o tradicional registro de compras em cadernos de papel sobrevive como uma alternativa de pagamento baseada exclusivamente na confiança mútua entre comerciantes e clientes. Para muitos, essa é a única forma de garantir o consumo essencial em períodos de dificuldade financeira ou restrição de crédito.

O sistema funciona de maneira simples, mantendo o costume de décadas passadas. Comerciantes locais, como Joaquim Sales, explicam que a modalidade é reservada a consumidores antigos e conhecidos, transformando a relação comercial em um laço de amizade e compromisso. Segundo Carlos Nogueira, que possui cerca de 20 clientes cadastrados em seu sistema de anotações, a medida evita a perda de vendas e auxilia famílias que acompanham o comércio há mais de 20 anos. Ele destaca que, embora o risco exista, a maioria preza pela palavra empenhada para não perder o benefício.
Para os usuários do sistema, como o autônomo Sérgio Ferreira, a caderneta é uma ferramenta fundamental para atravessar momentos de crise. Ele ressalta que o pagamento rigoroso em dia é o que mantém a engrenagem funcionando, já que qualquer atraso poderia quebrar o elo de confiança com o dono do estabelecimento. A prática, que também é comum em periferias de grandes metrópoles, encontra em cidades menores um ambiente fértil para se manter viva, especialmente entre aqueles que não possuem acesso aos meios formais de pagamento.
O motivo da sobrevivência desse costume vai além da tradição e esbarra na realidade econômica atual. De acordo com os lojistas, o endividamento e a negativação do nome junto aos órgãos de proteção ao crédito impedem que uma parcela significativa da população utilize cartões ou aplicativos bancários. Assim, a caderneta deixa de ser apenas um hábito antigo para se tornar um importante instrumento de inclusão social e econômica, permitindo que o consumo continue circulando dentro das comunidades locais.







