quarta, 1 de julho de 2026

Brasil e Haiti se enfrentam na Copa do Mundo em jogo que resgata laços históricos além do futebol

A seleção brasileira masculina de futebol terá um adversário com uma história rica e de superação em seu próximo desafio pelo Grupo C da Copa do Mundo. Na sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), o Brasil enfrenta o Haiti na Filadélfia, Estados Unidos. Dentro de campo, o confronto marca o encontro de extremos no ranking da Fifa, com o Brasil na sexta posição e os haitianos na lanterna. Apesar da distância técnica, a partida celebra o retorno histórico dos “Granadeiros” — apelido da seleção haitiana — ao Mundial após um jejum de 50 anos, uma conquista muito comemorada pelo país, que enfrenta uma grave crise política, humanitária e as consequências de desastres naturais.

Para além do esporte, o embate carrega uma forte bagagem cultural e diplomática entre as duas nações, marcada por acolhimento humanitário e solidariedade. O momento mais marcante dessa relação ocorreu em 2004, no chamado “Jogo da Paz”. Na ocasião, a convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, craques como Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho foram a Porto Príncipe para um amistoso contra a seleção local. O evento simbolizou o início de uma campanha de desarmamento após intensos conflitos armados na capital haitiana e buscou aproximar a população da Missão de Paz da ONU, que era liderada pelo exército brasileiro. O técnico do Brasil na época, Carlos Alberto Parreira, recorda com emoção o trajeto até o estádio, cercado por milhares de moradores sorridentes em áreas muito pobres que, por algumas horas, esqueceram o cenário de guerra.

A classificação atual dos haitianos reascendeu o orgulho nacional e a torcida por heróis como o centroavante Duckens Nazon, artilheiro da equipe com 44 gols, que foi fundamental ao anotar três gols em uma partida decisiva contra a Costa Rica nas eliminatórias. O elenco busca manter o pensamento positivo, como destacou o meia Jean-Ricner Bellegarde após a estreia com derrota por 1 a 0 para a Escócia, partida em que o Haiti chegou a dominar a posse de bola. No entanto, a equipe entrará em campo com um novo uniforme determinado por uma exigência polêmica da Fifa, que vetou referências à luta anticolonial do país na vestimenta.

A decisão da entidade máxima do futebol gerou críticas de especialistas, como o historiador Gabriel Léccas, mestre pela UERJ. O pesquisador aponta que a censura ao símbolo da independência de 1804 — conquistada após uma revolução inédita liderada por pessoas escravizadas — reflete uma tentativa contínua de silenciar a história do país. Léccas enxerga discriminação na medida, comparando-a com uniformes de outras seleções, como a dos Estados Unidos, que exibem livremente símbolos de sua própria independência. Segundo ele, o pioneirismo do Haiti ainda incomoda estruturas que tentam manter hierarquias raciais e econômicas.

Mesmo sem confrontos diretos nos gramados desde 2004, a corrente de apoio entre os dois países ganhou novos contornos humanitários após o trágico terremoto de 2010, que devastou o Haiti e vitimou 200 mil pessoas, incluindo 18 militares brasileiros. Diante da tragédia, o governo brasileiro facilitou vistos e a entrada de imigrantes e refugiados haitianos, que passaram a figurar entre os maiores grupos acolhidos no Brasil na última década. Atualmente, em uma nova fase de cooperação após o fim da controversa missão militar da ONU, o Brasil atua no apoio técnico para a formação e estruturação da Polícia Nacional do Haiti.

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