quinta, 9 de julho de 2026

Brasil bate recorde de crianças em creches, mas desigualdade regional e falta de vagas desafiam a educação infantil

O acesso à educação infantil no Brasil alcançou uma marca histórica. Em 2025, o país registrou 9,4 milhões de crianças de até 5 anos matriculadas em creches ou escolas, impulsionado pelo maior índice de bebês de 0 a 3 anos inseridos no ambiente escolar desde o início da série histórica em 2016. Os dados são do módulo Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgado pelo IBGE. O levantamento aponta que 43,3% dos brasileiros nessa faixa etária mais jovem já frequentam creches, o que representa um salto importante em relação aos 31,8% registrados há quase uma década e um crescimento de 2,2 pontos percentuais na comparação direta com 2024.

Apesar do avanço comemorado, o país ainda enfrenta dificuldades para cumprir suas próprias metas de planejamento. Nenhuma das grandes regiões brasileiras conseguiu atingir o objetivo do antigo Plano Nacional de Educação, que previa o atendimento de pelo menos 50% das crianças de 0 a 3 anos. Embora a matrícula nesta etapa não seja obrigatória por lei para os pais, a vaga é um direito constitucional da criança e um dever de oferta do Estado. O desafio se torna ainda maior com o novo plano nacional, que estipulou o compromisso de colocar, no mínimo, 60% das crianças de 3 anos na escola no período que vai até 2034.

Especialistas alertam que o crescimento numérico precisa vir acompanhado de planejamento estratégico e redução das desigualdades econômicas e geográficas. Em entrevista sobre os dados, Natália Fregonesi, coordenadora de Políticas Educacionais da organização Todos Pela Educação, destacou que a abertura de novas vagas deve focar nas regiões mais vulneráveis do país. Segundo ela, além de expandir fisicamente as redes de ensino, os municípios — que são os principais responsáveis por essa etapa — precisam de apoio técnico e financeiro do governo federal e dos estados para garantir que as novas creches tenham infraestrutura de qualidade, propostas pedagógicas sólidas e profissionais bem valorizados.

As disparidades territoriais e financeiras mapeadas pelo IBGE mostram o tamanho do abismo social no país. Enquanto o estado de Santa Catarina lidera o atendimento na primeira infância com 58,4% das crianças de 0 a 3 anos matriculadas, a Região Norte amarga os menores índices nacionais. O Amapá aparece no final da lista, conseguindo atender apenas 9,4% de seus bebês em creches, seguido por Acre, Amazonas e Roraima, que também registram taxas muito baixas. A desigualdade se repete no quesito financeiro e racial: o percentual de crianças pretas, pardas e indígenas fora da escola por barreiras de acesso é consideravelmente maior que o de crianças brancas, e as famílias que compõem os 20% mais pobres do país enfrentam uma dificuldade quatro vezes superior para matricular seus filhos em comparação com as famílias mais ricas.

A pesquisa também investigou os motivos pelos quais as crianças pequenas não frequentam a escola. Para a maioria dos pais de bebês de até 1 ano, a não frequência é uma escolha familiar, preferindo manter os filhos em casa. No entanto, há uma fila de espera alarmante de mais de 1,7 milhão de crianças cujos responsáveis gostariam de uma vaga, mas encontram as portas fechadas devido à falta de creches nos bairros ou regras de idade das instituições. Esse problema de infraestrutura e escassez de vagas é sentido com muito mais força nas regiões Norte e Nordeste.

Já na pré-escola, fase que atende crianças de 4 e 5 anos e cuja matrícula é obrigatória no Brasil desde 2009, o cenário nacional está muito próximo da universalização, atingindo o patamar recorde de 96,1% de atendimento. Ainda assim, o Todos Pela Educação faz um alerta para o fato de que cerca de 219 mil crianças dessa idade ainda continuam fora da sala de aula no país, com os piores índices concentrados novamente no Amapá. Como resposta para tentar equilibrar essa balança e assegurar mais direitos desde o berço, o Ministério da Educação instituiu o Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil, prevendo o investimento de mais de R$ 406 milhões entre 2026 e 2027 para apoiar estados e municípios que se comprometerem a expandir suas vagas com foco em quem mais precisa.

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