sexta, 7 de agosto de 2026

Brasil ainda mede mal os impactos do racismo, diz especialista

Apesar do grande volume de estudos sobre discriminação racial produzidos no Brasil, o país ainda enfrenta sérias barreiras para compreender como o racismo opera na prática como o motor das desigualdades sociais. Para tentar preencher essa lacuna científica, um grupo composto majoritariamente por pesquisadores negros lançou o Dara — Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo. O novo núcleo de pesquisas é vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj) e conta com uma equipe de 18 profissionais, financiada por agências públicas e instituições filantrópicas.

O coordenador-geral do Dara e professor de sociologia e ciência política da Uerj, Luiz Augusto Campos, explica que o Brasil é uma das nações que mais produzem dados sobre desigualdades raciais no mundo, mas que o cenário muda quando se trata de medir o racismo em si. Segundo ele, medir o tamanho da desigualdade é simples, mas estimar o impacto real do racismo como o mecanismo que gera esse abismo econômico e social é uma tarefa muito mais complexa. Um dos diagnósticos iniciais do grupo é preocupante: o Brasil sofreu um retrocesso no acesso a microdados oficiais e na integração de pesquisas de opinião pública, o que prejudica a análise dos efeitos do preconceito a longo prazo. Para mudar essa realidade, o núcleo pretende trazer ao país inovações metodológicas que já são usadas no exterior, como as pesquisas experimentais de campo, que ainda dão os primeiros passos por aqui.

Outro foco do Dara será a avaliação e o aprimoramento das políticas antirracistas. O professor destaca que ações afirmativas — como as cotas no ensino superior, no serviço público e nos recursos eleitorais — são vitórias consolidadas de movimentos sociais em um país que, historicamente, se fantasiava como uma democracia racial livre de preconceitos. Contudo, o momento atual impõe o desafio de enfrentar discursos que tentam barrar novos avanços sob o argumento falso de que as cotas já resolveram o problema. O pesquisador defende que são necessários dados inéditos e científicos para quebrar essa resistência e mostrar onde as políticas públicas ainda precisam ser aperfeiçoadas.

A própria composição majoritariamente negra da equipe do Dara é apontada por Luiz Augusto Campos como um reflexo direto do sucesso histórico das ações afirmativas das últimas décadas, que abriram as portas das universidades e da pós-graduação para novas gerações. Ele ressalta que essa diversidade de origens e vivências dentro da academia enriquece a ciência, permitindo que novas perguntas e realidades antes ignoradas entrem na pauta de pesquisa, sem nunca deixar de lado o rigor metodológico. O objetivo final do Dara é transformar essas vivências em conhecimento técnico acessível, ajudando a sociedade e os governantes a tomarem decisões baseadas em evidências reais.

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