terça, 7 de julho de 2026

Bastidores da ciência: Como uma rede global atualiza a vacina da gripe todos os anos para vencer as mutações do vírus

Todos os anos, meses antes do início oficial da vacinação contra a gripe, cientistas do mundo inteiro se dedicam a desvendar quais cepas do vírus influenza têm maior probabilidade de se espalhar. A resposta para esse enigma anual depende de uma imensa rede global de vigilância que monitora o comportamento do vírus e dita como deve ser a fórmula das próximas vacinas, como a versão trivalente produzida pelo Instituto Butantan e distribuída gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Esse monitoramento é essencial para enfrentar um inimigo que muda constantemente de formato e que ainda causa cerca de um bilhão de casos de gripe sazonal anualmente no planeta, dos quais até cinco milhões evoluem para quadros graves.

Os vírus da gripe que afetam os seres humanos são divididos principalmente entre os tipos A, B e C, mas apenas os dois primeiros têm potencial para causar grandes epidemias. O tipo A se diferencia pelas combinações de duas proteínas em sua superfície: a hemaglutinina, que infecta as células respiratórias, e a neuraminidase, que espalha o vírus pelo corpo. Atualmente, os subtipos que mais preocupam e que obrigatoriamente entram na vacina são o H1N1 e o H3N2. Já o tipo B é dividido em duas linhagens, mas uma delas, a Yamagata, não é vista no mundo desde 2020, possivelmente extinta pelo isolamento social na pandemia de Covid-19, o que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) manter apenas a linhagem Victoria nas recomendações atuais.

A grande arma de sobrevivência do influenza é a sua alta capacidade de sofrer mutações genéticas de forma rápida. O vírus altera sua estrutura para enganar as defesas do corpo humano, o que explica por que uma pessoa pode pegar gripe várias vezes ao longo da vida e por que a vacina precisa ser reformulada todo ano. Se a vacina não for atualizada, ocorre o chamado escape vacinal, situação em que o imunizante perde eficácia por ter treinado o organismo para combater um alvo antigo, diferente da nova ameaça que está circulando nas ruas.

O trabalho de vigilância que evita esse problema é liderado por uma rede da OMS que conecta centenas de laboratórios em mais de 130 países. No Brasil, o monitoramento começa nos postos de saúde, onde amostras de pacientes com sintomas gripais são coletadas e enviadas para análise nos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) de cada estado. Em seguida, os dados são refinados por três grandes centros nacionais de referência: a Fiocruz, no Rio de Janeiro, o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, e o Instituto Evandro Chagas, no Pará. Essas instituições enviam os resultados para o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, que consolida as informações das Américas e as repassa para a OMS definir a fórmula final das vacinas.

Como as estações do ano são invertidas nos dois hemisférios do planeta, a OMS faz anúncios em períodos diferentes: em fevereiro define a composição para o Norte e, em setembro, para o Sul global. Para a campanha atual do Hemisfério Sul, o Instituto Butantan produziu o imunizante com base nas diretrizes atualizadas que alteraram duas das três cepas em relação ao ano anterior. Logo em seguida, a fábrica paulista inicia a produção das doses do Hemisfério Norte, já que atende a demandas de ambas as regiões, totalizando mais de 80 milhões de doses entregues anualmente.

No Brasil, a vacina trivalente do Butantan está disponível desde março em grande parte do país para os grupos prioritários e, em estados como São Paulo, Goiás e Ceará, foi liberada para toda a população acima de seis meses para conter o avanço da doença. A medida tenta reverter a baixa adesão registrada, já que apenas cerca de 40% do público-alvo se vacinou. Além de proteger contra internações e mortes, a vacinação em massa reduz a circulação do vírus no ambiente, o que diminui drasticamente as chances de surgirem novas mutações perigosas. Complementando essa rede, centros de pesquisa brasileiros, como o CeVIVAS do Butantan, realizam estudos genéticos que ajudam a mapear como os vírus da gripe, da dengue e da Covid-19 se espalham pelo território nacional e pelas fronteiras da América do Sul.

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