

Quem circula pelo centro de São José do Rio Preto, no interior paulista, pode não notar, mas o urutau, uma das aves mais misteriosas e fascinantes da fauna brasileira, está aparecendo com cada vez mais frequência na paisagem urbana. Um desses encontros surpreendentes mudou completamente a rotina do produtor rural Paulo Antonio Cabrera de Souza, de 65 anos. O pássaro, também conhecido popularmente como mãe-da-lua, pousou na sacada do apartamento dele, localizado na movimentada rua Siqueira Campos, e permaneceu no local por quase um dia inteiro, trazendo um momento que o morador descreveu como de pura felicidade e paz.

A ave passou horas imóvel e dormindo na área externa do imóvel, exibindo o comportamento calmo que é típico de sua espécie. Paulo aproveitou a oportunidade única para registrar o visitante em fotos e vídeos, chegando a ficar a apenas 50 centímetros de distância do animal. O produtor rural relatou ter ficado impressionado ao notar que, mesmo parecendo dormir, o urutau o espiava de volta com seus olhos de um amarelo intenso através de uma pequena fresta na pálpebra. Essa característica curiosa funciona como uma espécie de “janela” biológica, permitindo que a ave vigie o ambiente e se proteja de possíveis ameaças sem precisar abrir totalmente os olhos.
A capacidade de passar despercebido é a maior especialidade do urutau, cujo nome de origem tupi significa justamente “ave fantasma”. De acordo com o biólogo e fotógrafo rio-pretense Rodrigo Verona, o animal possui tamanho médio, podendo alcançar até 40 centímetros de comprimento, e se destaca por sua camuflagem perfeita. Com penas em tons de cinza e marrom, ele consegue imitar perfeitamente texturas de madeira e passa o dia estático no topo de troncos e galhos. Suas atividades começam de verdade ao anoitecer, quando utiliza sua visão privilegiada para caçar insetos como mariposas e besouros no meio do voo.
Embora seja uma ave cercada de lendas e considerada difícil de ser avistada por observadores de pássaros do mundo inteiro, o urutau tem encontrado um refúgio acolhedor dentro de Rio Preto. O biólogo explica que a população da espécie está crescendo na cidade, com registros recentes em locais movimentados como as avenidas José Munia e Alberto Andaló. Esse fenômeno é favorecido pela arborização do município e pela presença de áreas de transição entre o cerrado e a mata atlântica nos canteiros e matas locais. Enquanto a ciência estuda essa adaptação urbana, o morador Paulo prefere celebrar a sorte de ter testemunhado de perto o mistério dessa visita inusitada.







