domingo, 8 de março de 2026

Aposentado de Birigui preserva história dos orelhões através de coleção com 1,8 mil cartões

A recente decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) de retirar os últimos telefones públicos das ruas brasileiras encerra um capítulo importante da comunicação no país, mas, em Birigui, essa memória segue preservada. João Careno, um aposentado de 60 anos, mantém em sua casa um acervo impressionante com mais de 1,8 mil cartões telefônicos. A coleção, que inclui exemplares das décadas de 1970, 80 e 90, reúne peças nacionais e internacionais, servindo como um registro físico de uma época em que as chamadas dependiam das famosas fichas e, posteriormente, dos cartões magnéticos.

A história de João com os cartões começou de forma despretensiosa em 1993, quando ele era dono de uma mercearia. Após a instalação de um orelhão em frente ao seu estabelecimento, ele passou a recolher os cartões que os clientes esqueciam ou descartavam. O que era curiosidade virou um hábito compartilhado com a família; seu filho, na época criança, começou a trocar cartões com colegas de escola, e mais tarde ajudou a internacionalizar o acervo ao pedir exemplares para amigos que viajavam para países como Japão e Estados Unidos. Para o colecionador, cada item guarda um design único e representa um tempo em que o acesso ao telefone era um evento social e comunitário.

O fim definitivo dos orelhões ocorre após o encerramento das concessões de telefonia fixa, desobrigando empresas como Telefônica e Claro de manterem essa infraestrutura. Segundo a Anatel, o processo de retirada é gradual e reflete a obsolescência do serviço diante da onipresença dos celulares. No noroeste paulista, ainda restam cerca de 787 aparelhos ativos, com a maior concentração em São José do Rio Preto e Araçatuba, mas o destino de todos é a remoção total ao longo de 2026.

Para João Careno, a notícia da retirada traz um sentimento de nostalgia e certa tristeza, pois marca o desaparecimento de um ícone urbano que democratizou a comunicação no Brasil. Enquanto as cabines amarelas desenhadas por Chu Ming Silveira deixam a paisagem das cidades, o aposentado garante que sua coleção continuará guardada como uma relíquia. Seu acervo é um testemunho de uma era em que a conexão entre as pessoas exigia o gesto de inserir um cartão e esperar pelo tom de discagem, uma rotina que agora pertence apenas aos livros de história e às mãos de colecionadores dedicados.

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