segunda, 13 de julho de 2026

9 de Julho: Como a derrota militar de São Paulo em 1932 virou o maior feriado do estado

Nesta quinta-feira, 9 de julho de 2026, o estado de São Paulo para para celebrar a Revolução Constitucionalista de 1932. Oficializado como feriado estadual em 1997, o dia relembra o momento em que os paulistas pegaram em armas e iniciaram um movimento militar contra o governo do presidente Getúlio Vargas. No entanto, por trás dos desfiles e das homenagens cívicas, historiadores apontam que a data carrega uma construção política e social complexa, misturando o desejo por democracia com a insatisfação das elites da época.

A crise do café e a chegada de Getúlio Vargas ao poder

Para entender o que levou São Paulo à guerra, é preciso voltar ao cenário da Grande Depressão de 1929. A quebra da Bolsa de Nova York arruinou o comércio do café, que era a base da riqueza paulista. Pouco depois, em 1930, a tradicional “Política do Café com Leite” — na qual paulistas e mineiros se revezavam na presidência — chegou ao fim com um golpe militar que destituiu o presidente Washington Luís e colocou o gaúcho Getúlio Vargas no poder.

Isoladas do governo central, as elites agrárias e industriais de São Paulo viram Vargas nomear “interventores” de fora do estado para governar o território paulista. A chegada de governantes de outras regiões e a implementação de novas leis sociais e trabalhistas geraram forte oposição dos partidos conservadores locais e da imprensa, que passaram a desenhar uma narrativa de que São Paulo precisava salvar o Brasil e exigir uma nova Constituição Federal.

O estopim da guerra e o surgimento do acrônimo M.M.D.C.

Os ânimos, que já estavam exaltados, explodiram no dia 23 de maio de 1932. Durante um protesto na Praça da República, na capital paulista, um grupo tentou invadir a sede de um partido aliado a Getúlio Vargas. O confronto direto com forças federais terminou em tragédia: quatro jovens estudantes foram baleados e morreram. São eles: Martins, Miragaia, Draúsio e Camargo.

A comoção pública diante das mortes deu origem ao acrônimo M.M.D.C., que se transformou no grande símbolo de resistência do estado. Pouco mais de um mês depois, no dia 9 de julho, as lideranças paulistas romperam oficialmente com o governo federal, dando início aos combates armados para expulsar as tropas de Vargas.

O mito do “perdemos, mas vencemos”

Sem o apoio militar de outros estados que haviam prometido ajuda, São Paulo ficou isolado e acabou derrotado pelas forças federais após quase três meses de intensos combates, rendendo-se em 2 de outubro de 1932. Apesar do fracasso nos campos de batalha, a elite paulista conseguiu transformar a derrota em uma vitória moral de longo prazo. A tese de que “São Paulo perdeu a guerra, mas venceu o argumento” ganhou força porque, em 1934, Vargas finalmente promulgou uma nova Constituição para o país.

Historiadores contemporâneos, no entanto, fazem uma leitura mais crítica desse consenso. Muitos apontam que o movimento, embora defendesse a redemocratização, também lutava contra avanços sociais importantes da Era Vargas, como os direitos trabalhistas e o voto feminino, impulsionado por um medo do comunismo e por lideranças que flertavam com ideias separatistas e até fascistas. O mito da identidade paulista valente e unida contra a ditadura foi fortalecido nos anos 1950, durante as comemorações do quarto centenário da cidade de São Paulo, quando a capital passava por um grande crescimento urbano.

A criação do feriado e o apagamento da Era Vargas

A transformação do 9 de julho em feriado oficial só aconteceu 65 anos depois do conflito, em 1997, sancionada pelo então governador Mário Covas. De acordo com cientistas políticos, a criação da data comemorativa serviu para reforçar a ideia de protagonismo econômico e político de São Paulo no cenário nacional. Naquela época, o discurso combinava com o projeto liberal e de abertura internacional do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que buscava, de certa forma, se distanciar do modelo de estado centralizador deixado pelo legado de Getúlio Vargas.

Atualmente, especialistas defendem que o ambiente escolar é o espaço mais importante para discutir a data. Longe de ser apenas um dia de folga ou uma celebração cega do passado, o feriado do 9 de julho funciona como um convite para que as novas gerações analisem a história do Brasil de forma mais crítica, compreendendo como as narrativas políticas são construídas para moldar a identidade de um povo.

Notícias relacionadas