Segunda, 15 de Julho de 2019
Quem abre a porteira no seu caminho?
12/02/2019 as 16:19 | Fernandópolis | Sérgio Piva
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Era uma manhã comum como todas as outras manhãs comuns na vida de uma pessoa comum. Estava do lado de dentro da janela da minha casa olhando o movimento além da grade frontal, de onde era possível avistar a esquina, onde carro parou um carro, que descia a rua lateral, ficando por alguns minutos estacionado, próximo à guia, mas ocupando parte da via transversal.

Imaginei, pela longa inércia do veículo, que as pessoas no seu interior estavam conversando. Mesmo com um ângulo diagonal de visão, podia perceber que se tratavam de duas pessoas, um adulto e uma adolescente, possivelmente mãe e filha.

Depois de alguns minutos, a mãe desce do carro e avançou rua adentro, até alcançar a calçada de uma residência, quando puxou o portão cinza em metal, abrindo-o completamente. Em seguida, retornou ao veículo e colocou-o no interior da garagem. Pude ver também o momento em que a mãe fechou o portão.

E a menina, por que não saiu do automóvel para executar aquela tarefa realizada pela mãe? Foi a indagação que fiz a mim mesmo, após assistir à cena, pois dificuldade de locomoção não era o motivo, já que vi por entre os vãos do portão daquela casa a menina descer do carro com a mochila da escola pendurada no ombro direito e abrir a porta da residência, por onde desapareceu do cenário.

Naquele instante, meu pensamento me transportou ao passado, quando ainda era menino, na estatura e na maneira de pensar, e me colocou dentro do carro com meu pai. Era como se estivesse revivendo o momento em que o carro para diante de uma porteira e eu descia na estrava de terra, enquanto a poeira levantada pela frenagem do automóvel ia caindo sobre mim e tudo mais à volta.

Alguns passos à frente, uma porteira fechada. Minha missão era abri-la, como sempre foi nas viagens ou visitas aos sítios dos familiares. Meu pai só me mandou uma única vez descer do carro e abrir a porteira. Dessa feita, até onde me lembro, não precisou repetir a ordem. Era parar o carro em frente à porteira e, mais que depressa, eu descia e corria abrir a porteira.

Percebi, daquele dia em diante, que minha missão se estendia em abrir o portão de casa, e de qualquer outro lugar que fosse, quando o carro em que estava parasse diante dele.

Hoje, refletindo sobre a cena que vi e as que se projetaram em minha memória, me parece que, ter sido incumbido de abrir os portões ou as porteiras das estradas, era a maneira que meu pai concebeu para me ensinar que na vida eu deveria sempre, por mim mesmo, abrir as porteiras para poder seguir em frente, buscando meu destino.

Talvez, analogamente, era a maneira que todos os pais, que existiram no período em que eu era criança, tinham de ensinar seus filhos a tomarem as rédeas (ou o volante) de suas próprias vidas.

É certo que os tempos mudaram e que o mundo evoluiu. Mas também é certo que evoluíram apenas as coisas, pois o homem permanece o mesmo que há séculos. Sente e se comporta igualmente aos antepassados.

Da mesma forma permanece inalterado a aprendizagem pelo exemplo, percebido logo cedo por qualquer criança, desde o colo até quando tiverem uma parcela de menino ou menina dentro de si.

Ensinar a abrir as porteiras do caminho nunca deixará de ser uma tarefa dos pais, ainda que os filhos precisem pisar na terra quente, sentir o calor escaldante do sol e engolir sua cota de poeira, enquanto aqueles assistem confortavelmente abrigado. Não por acaso, já abriram as próprias porteiras, pisaram na sua terra quente, sentiram o calor que a maioria sente e também engoliram muito poeira, quem sabe mais que a cota devida.

Conforto e proteção é desejado aos filhos pelos pais, no entanto, o aprendizado pela vivência é obtido com dificuldade. Vamos dar livros e ares-condicionados. Mais ainda, vamos dar exemplos. E, sobretudo, ensinemos a eles a abrirem as porteiras na estrada por onde forem andar.

Sérgio Piva

s.piva@hotmail.com
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